RESUMO
Jorge Amado, em seu romance Os subterrâneos da liberdade (1954), conta a história “não oficial” da época da ditadura Vargas. A transposição dos elementos históricos para a narrativa ficcional mostra as semelhanças e diferenças entre o discurso literário e o histórico. Os fatos históricos são vivenciados por diferentes personagens de núcleos sociais distintos. A profusão de vozes dessas personagens, no entanto, não traz uma pluralidade de pontos de vista, mas a voz unívoca do próprio autor, que busca difundir as idéias do Partido Comunista Brasileiro. No desenvolvimento do romance percebe-se uma esquematização maniqueísta expressa na construção das personagens e na própria construção da narrativa. O romance mescla os fatos históricos com as personagens ficcionais, logo, a verdade se junta a ficcionalidade, criando um conjunto de intencionalidades sensíveis às idéias políticas defendidas pelo autor. Jorge Amado apresenta a História da ditadura varguista, acrescentando elementos ficcionais e sua perspectiva a respeito dos fatos históricos, que está marcada pela intencionalidade ideológica do Partido e, assim, não escapa, em muitos momentos, da propaganda dos ideais comunistas.
Palavras-chave: Romance histórico. Literatura brasileira. Era Vargas. Jorge Amado.
RESUMEN
Jorge Amado en su novela Os subterrâneos da liberdade (1954) cuenta la história 'no oficial' de la época de la dictadura Vargas. La transposición de los elementos históricos para la narrativa ficcional juega con las semejanzas y diferencias entre el discurso literario y el histórico. Los hechos históricos son “vividos” por diferentes personajes de núcleos sociales distintos. La profusión de voces de esos personajes, sin embargo, no conduce a una pluralidad de puntos de vista, sino a la voz unívoca del propio autor, que busca difundir las ideas del Partido Comunista Brasileño. En el desarrollo de la novela se percibe un mecanismo maniqueo expreso en la construcción de los personajes y en la propia construcción de la narrativa. La novela mezcla personajes y hechos históricos con personajes ficcionales luego la veracidad se junta a la ficcionalidad, creando una bloque de intencionalidad sensible a las ideas políticas defendidas por el autor. Jorge Amado presenta la Historia de la dictadura varguista, añadiendo elementos ficcionales, su perspectiva a respecto de los hechos históricos está marcada por la intencionalidad ideológica del Partido y, así, no escapa, en muchos momentos, de la propaganda de los ideales comunistas.
Palabras claves: Novela histórica. Literatura brasileña. Era Vargas. Jorge Amado.
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho analisa a construção da narrativa literária e da narrativa histórica configuradas no romance Os subterrâneos da liberdade1, de Jorge Amado, o qual foi publicado no ano de 1954, em três tomos com os seguintes subtítulos: Ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel, sendo todos os volumes publicados pela editora Livraria Martins.
As fusões existentes no romance dos elementos ficcionais e dos elementos históricos são recorrentes durante todo o romance. Dada a importância das diferenças e semelhanças das formas de narrar do discurso histórico e do literário, fez-se necessária uma análise dos fatos históricos apresentados na obra, bem como de sua construção na narrativa ficcional. Percebe-se que o escritor faz uma nova escritura da História do Brasil da época da ditadura Vargas, e também narra “o processo de crescimento político das massas no confronto com os donos do poder.” (DUARTE, 1996, p.209). Dessa forma, verifica-se que a construção narrativa se baseia na escritura ficcional da História do Brasil centrada nos aspectos políticos e econômicos da época de 1937 a 1940, período em que se desenvolve a narrativa.
Segundo Eduardo de Assis Duarte, em sua obra Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1996), essa escritura ficcional “constitui o ponto extremo do engajamento amadiano” (p.209), pois, como verificar-se-á neste estudo, o autor busca elevar os valores partidários do Partido Comunista Brasileiro, denegrindo o sistema capitalista vigente.
Devido a essa ideologia partidária muito explícita, o romance é considerado por vários críticos brasileiros como “literatura de cunho panfletário”2 , portanto não é uma das obras do autor que possui um grande impacto junto ao público, e pode ser considerada como a representação de um segundo momento do autor, que após esse romance passou a escrever romances mais populares, como Gabriela, Cravo e Canela (1958), que apresenta personagens do nordeste de forma pitoresca e sensual. Essa fase do autor é a mais conhecida e referenciada, sendo que algumas dessas obras foram adaptadas para a televisão e para o cinema.
Diferentemente das obras pós-1954, as personagens construídas no romance em estudo são descritas por meio de seus ideais políticos e sociais. Isso revela os conceitos principais que constituem a obra, um momento histórico de repressão política, realizada pela ditadura Vargas, e os ideais políticos que o autor defendia.
Neste trabalho, portanto, são estudados aspectos pouco conhecidos dos leitores, isto é, uma fase em que o autor narra a história e a política da época de 1937 a 1940 por meio da ficção; trazendo, assim, uma escritura da história “não-oficial” (DUARTE, 1996, p.211).
No romance, as referências aos nomes históricos, a Estados do Brasil e a países, tais como Espanha, Alemanha, Japão e outros, são freqüentes. Os elementos geográficos e históricos são misturados à ficção, a ponto de o leitor não conseguir compreender qual a fronteira que separa a ficção e a história. Essa mistura do “real” e da imaginação, isto é, da história e da ficção permeia toda a obra, forçando o leitor a relacionar o romance com a história da época e refletir sobre a construção da história aceita como oficial.
No desenvolvimento da narrativa percebe-se que os elementos ficcionais e históricos estão intrinsecamente ligados. Essa fusão do ficcional e da história revela uma fronteira entre o imaginado e o supostamente “real” que permeia toda a obra. Esse elo entre o discurso histórico e o ficcional traz à tona uma problemática entre a narrativa histórica e a literária que são estudadas por Hayden White, que disserta sobre as semelhanças de construção das duas narrativas, e pelo crítico Walter Mignolo, que apresenta as convenções estabelecidas entre os discursos histórico e literário, mostrando suas diferenças e semelhanças. A partir desses dois estudiosos são analisados fragmentos do romance que mostram as fusões dessas diferentes formas de narrar um mesmo fato.
Como referencial teórico literário, também há referências ao livro de Umberto Eco, Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), no qual é possível perceber a função do texto literário em relação à realidade e à imaginação.
Quanto aos estudos literários, verificam-se os estudos de Antonio Candido, em Sociedade e Literatura (1965), e de Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira (1975). A partir desses críticos da literatura brasileira faz-se um breve levantamento dos acontecimentos históricos e literários que infligiam a época de 1937 a 1940.
No estudo do romance são analisadas as personagens, procurando-se perceber como o autor utilizou-se da memória e de seus ideais políticos para a criação das mesmas. Nessas análises, foram utilizados os estudos de Anatol Rosenfeld e Antonio Candido na obra A personagem de ficção (2000) e também as definições realizadas por Beth Brait a respeito da tipologia das personagens.
Visando analisar o engajamento e a ideologia partidária do autor, que permeiam a estrutura narrativa e a criação das personagens, foi realizado um estudo da obra de Jean Roche, Jorge bem / mal Amado (1995), um estudioso das obras amadianas, bem como do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1996), que percorre várias obras de Jorge Amado, mostrando as diferentes fases do autor e, também, a dissertação de Fabiana Biutor Carelli, Porões da memória: ficção e história em Jorge Amado e Graciliano Ramos (1997). A partir das definições por esses autores apresentadas, foi analisada a forma ideológica com que o autor criou as personagens, revelando na narrativa seu engajamento partidário. Dessa forma, pretende-se compreender as linhas convergentes e divergentes entre a Literatura e a História dentro da obra analisada, como também perceber a escritura da história por meio da perspectiva do autor.
2 PERSPECTIVAS TEÓRICAS: AS RELAÇÕES ENTRE HISTÓRIA E FICÇÃO
No romance Os subterrâneos da liberdade (1954) percebe-se a junção da história e da ficção, revelando, dessa forma, uma fronteira que separa e ao mesmo tempo une o “real” e o imaginado. A fim de compreender essa fronteira entre os elementos ficcionais e os elementos históricos que permeiam a obra, ou seja, as relações que se estabelecem entre Literatura e História, buscou-se a compreensão dos estudos de Hayden White e Walter Mignolo.
Hayden White em seu ensaio de 2001, O texto histórico como artefato literário, define a narrativa histórica como
ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências (p.98).
Essa definição de White traz à tona um dos principais eixos das relações entre História e Literatura. White, inicialmente, apresenta em seu ensaio a reflexão de Northrop Frye, que parte do entendimento de que o historiador trabalha indutivamente e busca os fatos por meio de pesquisas e relatos da vida real, diferentemente do literato, que narra a partir da sua imaginação. White complementa essa reflexão de Frye dizendo que, mesmo com essa busca de fatos em lugares opostos, a estrutura da narrativa histórica se assemelha à narrativa literária, pois ambas são concebidas a partir de uma ordenação dos fatos e de uma seleção do tipo de enredo para que se tornem compreensíveis ao leitor.
Nesse ensaio, White mostra que o conjunto de acontecimentos históricos registrados e colhidos pelo historiador não podem, isoladamente, constituir uma narrativa histórica, pois são apenas elementos da história. Segundo White (2001), esses acontecimentos serão
[...] convertidos em estória pela supressão ou subordinação de alguns deles e pelo realce de outros, por caracterização, repetição do motivo, variação do tom e do ponto de vista, estratégias descritivas alternativas e assim por diante – em suma, por todas as técnicas que normalmente se espera encontrar na urdidura do enredo de um romance ou de uma peça [...] (p.100)
A estrutura narrativa histórica, portanto, é composta não só de acontecimentos “reais”, mas também pela ordenação desses acontecimentos, ou seja, o mesmo conjunto de eventos poderá servir como componente de uma história trágica ou romântica; isso dependerá da escolha da estrutura de enredo que parecer melhor ao historiador para ordenar tais eventos, como explana White (2001):
[...] a maioria das seqüências históricas pode ser contada de inúmeras maneiras diferentes, de modo a fornecer interpretações diferentes daqueles eventos e a dotá-los de sentidos diferentes [...] (p.101)
A partir desse conceito desenvolvido por White, este estudo analisa a construção da História do Brasil da ditadura Vargas, de 1937 a 1940, na obra de Jorge Amado, na qual o autor destaca na ficcionalidade do seu romance datas históricas e nomes reais, relacionando, dessa forma, fatos históricos e fatos ficcionais.
Conforme White (2001), o historiador busca se basear em coletas de dados e informações “reais” para criar sua narrativa histórica, no entanto ele terá que reconstruir esse momento passado através de um discurso em prosa, que tentará mostrar ao leitor a forma original das ocasiões utilizando-se apenas de uma parte dela, isto é, o original torna-se fragmentado a partir da escolha do historiador. Nesse sentido, White analisa que o estilo narrativo, na história e no romance, é construído como uma modalidade do movimento que parte da representação de um estado de momentos originais para chegar a um subseqüente; assim, analisa White (2001):
[...] O sentido básico de uma narrativa consistiria, então, na desestruturação de um conjunto de eventos (reais ou imaginários) originariamente codificados num modo tropológico, e na reestruturação progressiva do conjunto num outro modo tropológico (p.113).
White analisa que um mesmo fato histórico poderá ser recodificado de formas diferentes, gerando novas interpretações e podendo estruturar-se em um tipo de drama como satírico, romântico e trágico; no entanto, os próprios eventos não se alteram substancialmente de um relato para o outro, ou seja, os dados a analisar não apresentam uma diferença significativa nos diferentes relatos, pois o que difere são as modalidades das suas relações.
Pode-se dizer, assim, que Jorge Amado não muda os fatos históricos, porém constrói uma narrativa escolhendo os fatos, ordenando-os, destacando e ocultando outros, ou seja, cria uma história dentro de uma convenção ficcional. Como mostra White (2001):
[...] toda narrativa não é simplesmente um registro do que aconteceu na transição de um estado de coisas para outro, mas uma redescrição progressiva de conjuntos de eventos de maneira a desmantelar uma estrutura codificada num modo verbal no começo, a fim de justificar uma recodificação dele num outro modo final. Nisto consiste o “ponto médio” de todas as narrativas (p.115).
White apresenta que tanto o historiador como o romancista tentam dar sentido ao mundo real ao longo de sua evolução no tempo, tirando a obscuridade desse mundo e transformando-o em uma forma reconhecível e familiar a partir da narrativa, não importando, portanto, se esse mundo é concebido como real ou apenas imaginado, mas como se dá um sentido a ele.
Pode-se destacar, a partir desses conceitos, que há uma convenção ao longo dos anos que deu um status à narrativa histórica de representação do “real”, portanto de caráter verídico, enquanto a narrativa literária assumiu seu estado de representação do imaginado, do ficcional. Essa convenção é muito bem exposta por Walter Mignolo em seu ensaio de 1993, Lógica das diferenças e política das semelhanças da Literatura que parece História ou Antropologia , e vice-versa, no qual o autor busca uma definição de
normas historiográficas e literárias. A linguagem é empregada de acordo com as normas historiográficas (NH), ou literárias (NL), sempre que todo membro de uma comunidade especializada (científica ou artística) CmE, ao realizar uma ação lingüística, espera que os outros membros de CmE, assim como também todo membro da comunidade lingüística Cm que conhece a língua e as normas, reaja de acordo com a NL ou a NH e aceite: que o escritor ou historiador opera dentro do contexto x de historiografia, ou y de literatura, ou se opõe a eles de uma maneira que é incompreensível, porque ao opor-se, invoca-as (p.124).
A partir dessas definições, Mignolo relaciona a História e a Literatura, sendo que a linguagem literária enquadra-se na convenção de ficcionalidade; entretanto, ao deparar com o ensaio e a autobiografia, esse conceito de ficcionalidade dependerá da posição do escritor, ou seja, se o escritor for um poeta, sua autobiografia estará comprometida no mundo literário, enquanto uma autobiografia de um historiador ou de grandes políticos se compromete naturalmente nas normas historiográficas; dessa forma, Mignolo analisa que é preciso contemplar a heterogeneidade e a mobilidade dos níveis de conhecimento e a variação que ocorre entre as convenções e as normas. Mignolo (1993) mostra:
[...] A convenção de ficcionalidade não é, ao que parece, uma condição necessária da literatura, ao passo que a adequação à convenção de veracidade, ao que parece, é condição necessária para o discurso historiográfico (p.125).
Mignolo, portanto, problematiza a questão da separação entre a veracidade e a ficção, ao perceber que em uma narrativa literária poderão existir dois tipos de enunciados: o literário e o histórico. Neste estudo sobre a obra de Jorge Amado, é possível verificar essa inserção dos elementos “reais” - históricos e geográficos - na narrativa ficcional. Para solucionar esse problema, Mignolo apresenta a abordagem de Parson (1980), que distinguiu a inserção de elementos históricos dentro da narrativa literária da seguinte forma: “[...] entidades nativas e entidades imigrantes”. Mignolo segue explicando que a entidade imigrante, segundo Parson (1980), seria uma entidade já existente, cuja existência já era aceita antes que o romance fosse escrito, transportada para um mundo ficcional, no qual ela será aceita, ao mesmo tempo, como uma personagem de ficção e uma pessoa histórica. A entidade nativa, portanto, é aquela que terá sua “existência” somente no âmbito da narrativa literária, ou seja, aquela que o autor criou.
A partir desse conceito, este estudo analisa como o autor Jorge Amado trabalhou essa transposição de personagens reais para seu romance, transformando-os em entidades imigrantes, segundo Parson (1980), e que passam a ter identidade histórica e ficcional.
Mignolo (1993) explana em seu ensaio, sobre essa composição do ficcional e do histórico, da seguinte forma:
[...] A relação, portanto, entre o ficcional e a verdade não se estabelece necessariamente pela negativa (porque o ficcional não implica a mentira), mas pela própria natureza das convenções. O enquadramento na convenção de ficcionalidade apresenta as regras do jogo de forma aberta e, portanto, isenta das condições impostas pela convenção da veracidade. No entanto, quando no romance (que implica a convenção da ficcionalidade) imita-se o discurso antropológico ou historiográfico (que implica a convenção da veracidade), estamos diante de um duplo discurso: o ficcionalmente verdadeiro do autor (porque, ao enquadrar-se na convenção de ficcionalidade, não mente) e o verdadeiramente ficcional do discurso historiográfico ou antropológico imitado (porque, ao invocar a convenção de veracidade, está exposto ao erro e há a possibilidade de mentira) [...] (p.132-133)
Mignolo, dessa forma, mostra que a questão da “verdade” na ficção é apresentada quando se imita um discurso que está enquadrado na convenção de veracidade e que as linhas que separam a História e a Literatura estão muito próximas, sendo que, em alguns momentos, chegam a coincidir.
Este trabalho atem-se também à explanação que Umberto Eco faz em sua obra de 1994, Seis passeios pelo bosque da ficção, sobre a “verdade” ficcional:
É possível inferir dos textos coisas que eles não dizem explicitamente - e a colaboração do leitor se baseia neste princípio -, mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram. [...]
O mesmo grau de convicção é possível quando falamos de verdade no mundo real? Temos certeza de que não há nenhum tatu nesta sala, pelo menos na mesma medida em que temos certeza de que Scarlett O´Hara se casou com Rhett Butler. Entretanto, com relação a muitas outras verdades, só nos resta contar com a boa-fé de nossos informantes, e às vezes com sua má-fé. Em termos epistemológicos não podemos estar certos de que os americanos pousaram na Lua (contudo, temos certeza de que Flash Gordon chegou ao planeta Mongo). Vamos ser tremendamente céticos (e um pouco paranóicos) por um instante: pode ter acontecido que um grupinho de conspiradores (digamos, gente do Pentágono e de vários canais de televisão) tenha organizado uma Grande Farsa. Nós - quer dizer, todos os outros telespectadores - simplesmente acreditamos naquelas imagens que nos diziam que um homem havia pousado na Lua (p.98-99).
Umberto Eco, nessa explanação, contrasta os dados ficcionais, nos quais o leitor confia, pois conhece a convenção de ficcionalidade, com os dados que são considerados “verdadeiros”, pois podem-se buscar provas no mundo “real” para que se confirme sua veracidade. Conforme Umberto Eco (1994), o mundo ficcional se apóia no mundo real, tomando-o como pano de fundo para o leitor; ele analisa da seguinte forma:
[...] na verdade, espera-se que os autores não só tomem o mundo real por pano de fundo de sua história, como ainda intervenham constantemente para informar aos leitores os vários aspectos do mundo real que eles talvez desconheçam (p.100).
Eco mostra que o autor pode inserir o mundo visto como “real” em sua narrativa literária, misturando, assim, as duas convenções, como foi apresentado por Mignolo; neste momento, pode-se verificar que, como White mostra em seu ensaio, História e Literatura andam paralelamente na construção dos enredos, sejam eles literários (ficcionais) ou históricos (verídicos).
Ao utilizar essas teorias na análise do romance, busca-se compreender a construção narrativa de Jorge Amado, bem como a construção histórica a partir da perspectiva do autor.
2.2 HISTÓRIA E LITERATURA: REFLEXOS E CONTRADIÇÕES NO TEMPO
Para que se possa compreender o contexto literário e histórico no qual desenvolveu-se a obra Os subterrâneos da liberdade (1954), de Jorge Amado, foi feito, primeiramente, um recuo no tempo, verificando as mudanças que ocorreram na literatura e na sociedade, de 1922 a 1945.
Esse recuo seguiu a linha histórica e literária, observando que um momento é apenas a “ponta de um iceberg”, isto é, atrás de uma data histórica preestabelecida há uma seqüência de fatos que desencadearam os acontecimentos, como descreve Alfredo Bosi em seu ensaio Tempo e Tempos (1992): “[...] O antes é a semente, o germe, a raiz do depois [...]” (p.21).
Nesse retorno no tempo, percebe-se que o movimento modernista da semana de 22 rompe com as formas tradicionais, contribuindo para uma mudança estética e desencadeando uma nova geração de escritores. Dessa forma, pode-se dizer que o movimento da semana de 22, que inaugurou o Modernismo no Brasil, foi um marco no tempo, “a semente” que gerou as várias mudanças que ocorreriam posteriormente.
As transformações na literatura permanecem e, na década de 30, surge o regionalismo, que estava mais direcionado aos problemas brasileiros e acrescenta ao modernismo de 22 não somente uma mudança estética, mas também uma mudança temática.
Esse movimento literário é explanado pelo crítico Antonio Candido, em sua obra Literatura e Sociedade, como um movimento de idéias que dá início a uma literatura direcionada para “a libertação do academismo, dos recalques históricos, do oficialismo literário; as tendências de educação política e reforma social; o ardor de conhecer o país” (CANDIDO, 1965, p.148).
Historicamente, também ocorriam várias mudanças sociais, políticas e econômicas no Brasil e no mundo. Com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, várias falências foram decretadas, ocasionando fome e desemprego em vários países. Na Europa, a crise contribuiu para o fortalecimento do nazi-fascismo. Em 1933, após a 1º etapa do plano do governo Roosevelt, nos EUA, o New Deal, a crise começou a ceder; porém, na América e na Europa, esta se estendeu até a deflagração da 2º Guerra Mundial. O nazi-fascismo ganhou força com a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Japão de Hiroto, o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco; foi a época das ditaduras em âmbito mundial.
No Brasil, a crise afeta os cafeicultores, que foram obrigados a baixar o preço do café e, em 1930, acontece o golpe de Estado de Getúlio Vargas, que instaura o populismo (República Nova ou Segunda República) e substitui o Estado oligárquico, que estava preocupado com os interesses dos cafeicultores, diversificando, assim, a economia.
Devido à fraqueza das forças de oposição, o Estado assume o poder político integralmente, intervindo nos sindicatos e nomeando secretários que representavam o governo dentro desses. Dessa forma, os conflitos entre esquerda e direita se acentuaram e o governo teve seu poder contestado pelos tenentes, que propuseram reformas em nome do exacerbado nacionalismo e pela velha oligarquia cafeeira que, em 1932, tenta retomar seus antigos privilégios.
É exatamente dentro desse contexto de grandes transformações políticas e sociais que nasce a 2º fase do Modernismo, a geração de 30, na qual, segundo Antonio Candido (1965), a literatura e o pensamento deram um grande avanço, tornando a prosa liberta e amadurecida. O romance é marcado por neo-naturalismo e por inspiração popular, refletindo, em um primeiro momento, os dramas do país, tais como a decadência da aristocracia rural e a formação do proletariado, bem como luta do trabalhador do campo.
Nesta fase, junto a outros escritores, encontra-se Jorge Amado com a publicação de sua primeira obra, O país do Carnaval (1931), a qual possui marcas regionalistas e sociais da Bahia e do povo baiano, bem como da luta dos trabalhadores nas fazendas de cacau.
No âmbito da História, as mudanças econômicas e sociais continuavam. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio instaura o Estado Novo, outorgando poderes a si mesmo, nomeando interventores federais para os Estados e criando a censura prévia. Enquanto isso, no âmbito internacional, Hitler invade a Europa junto ao eixo nazi-fascista. O golpe muda a estrutura política do país, os grandes fazendeiros e os políticos do café com leite da região de São Paulo e Minas Gerais perdem o poder. A industrialização no país deu seus primeiros passos de maneira precária, contribuindo para o nascimento de uma classe operária nas fábricas paulistanas, que lutava pelos direitos trabalhistas. Nos Estados nordestinos a industrialização era algo distante, ocorria o abuso dos latifundiários, que transformaram a mão-de-obra dos camponeses em um verdadeiro regime escravocrata. Havia realidades totalmente distintas entre São Paulo e os Estados nordestinos.
Na Literatura, com a instauração do Estado Novo, segundo Candido (1965), surge a fase do Modernismo ideológico, o qual toma novos aspectos, seguindo várias vertentes: de cunho social, nas obras de Graciliano Ramos; de defesa do catolicismo, com Tristão de Ataíde; de nacionalismo voltado para a política fascista, com Plínio Salgado; e de ideologia partidária, com Jorge Amado. Todas as transformações políticas e sociais que ocorreram no mundo refletiram-se na literatura, assinalando uma nova projeção estética do Modernismo e, ao mesmo tempo, uma reação do espiritualismo literário e ideológico.
Essa trajetória literária e histórica mostra o “germe” que incitou o autor Jorge Amado a escrever o romance Os subterrâneos da liberdade (1954), no qual o autor narra a época de 1937 a 1940, enfatizando os problemas políticos e sociais que ocorreram mundialmente, mostrando acentuadamente seu engajamento político. Devido a este caráter sectário que cobre a obra, vários críticos literários incluem Os subterrâneos da liberdade (1954) em “[...] um grupo escrito de pregação partidária [...]” (BOSI, 1979, p.457).
Partindo do conceito de engajamento de Jean Roche (1995), a obra Os subterrâneos da liberdade (1954) apresenta um realismo socialista, o qual segue os modelos indicados pelo partido, e mostra de forma maniqueísta os integrantes do partido comunista, criando personagens “do bem”, que são representados na obra pelos comunistas, que lutam contra o “mal”, representado pelos banqueiros, latifundiários e pelas tradicionais famílias paulistanas que representavam a política do café com leite.
Procurando compreender melhor o romance analisado, faz-se necessária uma contextualização do autor Jorge Amado na Literatura Brasileira, a qual atenta à sua trajetória de escritor e membro partidário do PCB.
A obra de Jorge Amado, que se iniciou com uma temática regionalista, sofre mudanças com os acontecimentos históricos e políticos que envolveram o autor na época. O escritor aproximou-se cada vez mais da política e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. O engajamento político do autor refletiu em suas obras por meio da idealização do comunismo. Inicialmente, eram traços leves da ideologia partidária, como na obra Seara Vermelha (1946); no entanto, nas obras O Cavaleiro da Paz (1942) e O Mundo da Paz (1951), Jorge Amado deixa transparecer claramente seu engajamento político. Logo em seguida, é publicada Os subterrâneos da liberdade (1954), na qual também é possível verificar esse engajamento.
Neste estudo, segue-se o conceito de engajamento dado pelo autor Jean Roche, em sua obra Jorge bem/mal Amado (1995), na qual o autor faz um estudo sobre as obras de Jorge Amado, analisando, através do uso da linguagem, as obras que possuem as marcas de engajamento do autor. Jean Roche define o romance engajado:
[...] aquele em que o autor baseia sua criação sobre o seu credo, em que ele dá publicamente o testemunho desse credo, chegando às vezes até a pregação. O romance engajado é, portanto, também um ato (p. 18).
A obra engajada é muito criticada pelos estudiosos de literatura, pois parte-se da premissa de que não é apresentada ao leitor uma dialética, mas sim um monólogo, no qual o autor impõe seus ideais de sociedade. Antônio Candido, em sua obra Literatura e Sociedade (1965), conceitua as diversas transposições que ocorreram na literatura após a semana de 22 e cita como principais traços literários da fase pós-1945:
[...] Os novos manifestaram pouco interesse pela literatura ideológica de esquerda e de direita, e os que tinham vocação política desleixaram não raro a literatura, passando diretamente à militância. Desenvolve-se, deste modo, o que parece constituir um dos traços salientes dessa fase: a separação abrupta entre a preocupação estética e a preocupação político-social, cuja coexistência relativamente harmoniosa tinha assegurado o amplo movimento cultural do decênio de 30. Com a definição cada vez mais clara das posições políticas (não só entre direita e esquerda, como antes, mas dentro da própria esquerda e da própria direita), os escritores políticos se tornaram cada vez mais sectários, no sentido técnico da expressão. Tornaram-se especializados na direção propagandística e panfletária, enquanto por outro lado os escritos de cunho mais propriamente estético (sobretudo a poesia e a crítica [...]) se insulavam no desconhecimento, propositado ou não, da realidade social (p.152, grifo nosso).
A partir dessa descrição de Antônio Candido, pode-se observar que a obra Os subterrâneos da liberdade (1954) possui uma direção dada pelo autor voltada para a propaganda política e sectária.
Ao desencadear essa série de conceitos sobre História e Literatura, busca-se mostrar neste trabalho que o autor Jorge Amado trouxe a História, de 1937 a 1940, para dentro do seu romance, propondo uma forma particular de ver a história da época a partir da sua visão ideológica. Marilena Chauí, em seu livro O que é ideologia? (2001), define ideologia da seguinte forma:
A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer [...] (p.108)
Neste estudo, portanto, busca-se mostrar como o autor Jorge Amado construiu a História do Brasil na época da ditadura Vargas dentro da sua obra de ficção, na qual o autor inseriu elementos constitutivos da narrativa histórica, misturando personagens reais aos imaginados, mesclando, assim, fatos reais e ficcionais, criando a partir do seu recorte no tempo e do seu olhar uma nova perspectiva sobre o momento político e histórico por que o Brasil passava; no entanto, neste estudo salienta-se que toda essa construção ficcional realizada por Jorge Amado é executada através de representações de ideais e valores de um grupo político, no qual o autor é engajado.
3 A OBRA DE JORGE AMADO: OS SUBTERRÂNEOS DA LIBERDADE
A narração do romance Os subterrâneos da liberdade (1954), de Jorge Amado, relata os fatos ocorridos nos últimos dias de outubro de 1937 até o ano de 1940. Inicialmente são mostradas as preocupações do deputado Artur Carneiro Macedo da Rocha, representante da burguesia paulista, em relação às eleições que, possivelmente, não ocorreriam, devido ao golpe previsto tanto por Getúlio como por Armando Sales.
O narrador constrói aos poucos o ambiente burguês e capitalista, representado por alguns intelectuais, como o poeta Shopel, e pelos novos ricos, como a Comendadora da Torre, empresária do ramo de tecido.
Percebe-se que nessa fase não ocorre somente uma mudança de governo, mas também de capitais. Artur Carneiro representa a burguesia paulista e seus anos de tradição, mas é totalmente comandado por Costa Vale, banqueiro bem-sucedido, que negocia com os capitais americanos e constrói a empresa que irá explorar manganês no vale do Rio Salgado. Costa Vale manipula a todos com sua audácia e sempre faz comparações entre a economia americana e a alemã. Nos diálogos de Costa Vale com Artur percebe-se que a classe deste último está em decadência e quem a está substituindo são os banqueiros.
O narrador mostra a classe burguesa ressaltando a ganância, a sede de poder e a falta de amor para com os demais, além das constantes traições e das manipulações políticas entre partidos opostos, exceto o Partido Comunista.
O narrador, ao descrever os comunistas, valoriza as qualidades de lealdade e de confiança destes no Partido. São esses homens e mulheres pobres que lutam por um ideal de uma vida melhor para todos, sendo que os exemplos de militância e forma de economia sempre são buscados na União Soviética.
Os comunistas sofrem várias privações, como a fome, a tortura e até mesmo a loucura e a morte, pelo ideal do Partido. Constantemente, são presos e ameaçados de diversas formas, vivem escondidos, mas sempre possuem uma palavra de conforto e de amizade que revela traços partidários.
O narrador apresenta também personagens que, inicialmente, não possuem vínculo com nenhuma das posições acima: a capitalista e a comunista. Manuela e seu irmão Lucas representam essas personagens, mas, durante o desenvolvimento da narrativa, elas se direcionam para uma dessas posições políticas.
Manuela é uma imigrante italiana inocente e pobre que deseja dançar balé, porém é enganada por Paulo, filho de Artur, que a deixa grávida para se casar com Rosinha, sobrinha da Comendadora. Manuela é persuadida a abortar a criança pelo seu irmão Lucas, que vê na criança um obstáculo para que ele cresça financeiramente. Manuela, quando aborta o filho, conhece Mariana, comunista, e Marcos, um simpatizante do comunismo, que depois se filia ao Partido e casa-se com Manuela, que passa a ser uma moça muito mais feliz depois de conhecer o Partido.
Lucas, o irmão, nunca aceitou a pobreza, queria possuir muito dinheiro e poder, como Costa Vale, e viu seu momento de crescer financeiramente quando passou a trabalhar com o chefe do gabinete do Ministério do Trabalho. Lucas faz, então, várias transações comerciais utilizando o dinheiro da caixa de pensão e aposentadoria dos trabalhadores. Compra empresas e passa a ser um dos mais novos ricos. Alia-se a Costa Vale e quer casar-se com Alina, a outra sobrinha da Comendadora.
Todos os personagens são envolvidos pelos acontecimentos históricos que vão de 1932, que é relembrado tanto pelas personagens comunistas como capitalistas, até 1940, com a prisão de vários integrantes do Partido Comunista e o julgamento de Luis Carlos Prestes.
Os acontecimentos ocorrem em várias regiões do Brasil, sendo São Paulo uma das mais citadas, porém são narrados também momentos da guerra civil espanhola, na qual o tenente Apolinário, mandado pelo Partido, atua até o final do conflito. Referências à guerra na Polônia e na Finlândia e à invasão de Hitler na França também são apresentadas durante a narrativa.
Na região do Mato Grosso, a narrativa mostra os acontecimentos que ocorrem no momento da implantação e da exploração da empresa de Costa Vale e dos americanos no vale do Rio Salgado. Nessa região também se narra o poder dos coronéis latifundiaristas que oprimem os meeiros e camponeses em suas terras. O Partido aparece, então, como uma solução para o analfabetismo e a ignorância dos moradores do campo sobre as leis, isto é, após conhecer o Partido, o homem se torna mais consciente dos seus direitos e deveres, lutando, assim, contra a dominação americana e cobrando a divisão das terras.
No final do romance, ocorre o julgamento de Luis Carlos Prestes. A maioria dos dirigentes do Partido Comunista estão presos, mas a narrativa deixa transparecer uma idéia de recomeço, ou seja, de que a esperança de uma revolução proletária não terminaria e de que o Partido se reergueria.
4 FATOS HISTÓRICOS: AS DIFERENTES PERSPECTIVAS DAS PERSONAGENS
A narração do romance Os subterrâneos da liberdade (1954) é desenvolvida entre os anos de 1937 a 1940 e, dessa forma, reconta-se a História do Brasil, enfatizando vários aspectos políticos. Existem vários outros momentos que são revocados pelas personagens, que recordam acontecimentos importantes anteriores a essas datas; porém pode-se dizer que a narrativa prioriza os anos de 1937 a 1940.
As recordações das personagens, como verificar-se-á adiante, é uma estratégia de que o autor se utiliza para unir a história e a ficção de uma forma verossímil. Para tanto, são apresentadas várias perspectivas referentes às datas históricas de 1930, 1932 e 1935, as quais encadeiam uma trajetória de acontecimentos que mudariam a política brasileira.
O romance compõe-se de três tomos, sendo que no primeiro a narração é desenvolvida nos anos de 1937 e nos primeiros meses de 1938. São narrados os acontecimentos anteriores e posteriores ao golpe de Estado de Getúlio Vargas. No segundo tomo prossegue a seqüência dos fatos políticos, tais como o golpe dos políticos armandistas e integralistas contra o governo de Getúlio e a prisão dos comunistas, abrangendo, dessa forma, os anos de 1938 e 39. No último tomo são narradas as torturas e prisões dos comunistas, bem como dos julgamentos destes e de Luis Carlos Prestes, sendo esses momentos decorridos nos anos de 1939 e 40. Nos três tomos aparece a seguinte epígrafe camoniana
Metida tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que me ensinou a viva experiência
Segundo Duarte (1996), o autor busca em seu romance desmoralizar o governo de Getúlio, que perseguiu o Partido Comunista, prendeu Prestes e torturou os oposicionistas, sendo o próprio escritor vítima da ditadura de Vargas. Devido a esses fatores, o romance apresenta um aspecto de testemunho histórico e a epígrafe camoniana enfatiza essa característica ao se relacionar com o falar “verdades puras” que foram ensinadas pela “viva experiência”.
Jorge Amado utiliza-se da narrativa ficcional para contar os fatos ocorridos durante o Estado Novo; no entanto, o romance não possui um aspecto autobiográfico ou de memórias, como em Memórias do Cárcere (1954), de Graciliano Ramos. Entende-se, neste trabalho, que o escritor optou por escrever a História não oficial do Estado Novo por meio de um narrador onisciente para fortalecer a idéia de discurso histórico. Dessa forma, o autor proporcionou uma aparente abertura para mostrar diferentes vozes diante de um mesmo fato.
Para que se compreenda a estrutura narrativa, pode-se dizer que o romance é constituído de duas partes: um macrocosmo histórico que revela uma perspectiva histórica e um microcosmo ficcional que possui referentes extratextuais, porém de uma forma mais metafórica. Esse microcosmo ficcional é criado a partir da memória do autor e de sua imaginação, que cria personagens a partir do imaginário de pessoas que viviam na época.
No início do romance é possível perceber que o autor busca situar um espaço - “Uma longa fila de carros atulhava o viaduto do Anhangabaú, dirigindo-se ao Teatro Municipal [...]” (OSL, I, 21) - e um tempo ficcional “[...] pensava com alegria que dentro em poucas horas aquele fatídico mês de outubro do ano de 1937 estaria terminado, talvez novembro se iniciasse sob melhores auspícios.” (OSL, I, 21) que possuem um vínculo com os acontecimentos históricos, com o ano de 1937, ou seja, há um tempo datado e representativo no âmbito da história.
Os acontecimentos narrados antes do golpe de Estado de Getúlio Vargas pertencem ao âmbito da ficcionalidade, pois o autor imagina diálogos entre as personagens que não são apresentados na história. A narrativa ficcional se apresenta a partir dos diálogos das personagens e de suas recordações, as quais remetem ao momento histórico de 1937. O leitor é inserido, primeiramente, no microcosmo literário, no qual o autor tem o compromisso de tornar o momento narrado verossimilhante aos acontecimentos que serão apresentados posteriormente, que são os fatos históricos; assim, o narrador cria uma linha imaginária que segue uma seqüência de fatos, sendo que o microcosmo literário dialoga constantemente com a história. Esse desenvolvimento da narrativa gera em alguns momentos uma fusão entre os elementos ficcionais e os históricos. A junção entre as narrativas traz ao leitor mais desprovido de conhecimentos históricos, uma dificuldade em separar o imaginado do “real”.
Observa-se, neste romance, que as convenções histórica e literária3 relacionam-se por meio da imigração4 dos elementos históricos para o literário. No entanto, para que haja essa junção da linha imaginada com a histórica, o autor precisou utilizar o recurso de criar primeiro um antes, “outubro”, o qual não possui relevada importância no universo da História. Essa construção do “antes” é constante dentro do romance, como se verificar-se-á no decorrer da análise.
Pode-se dizer que o cenário da narração ficcional é a História, bem como alguns fatos que envolvem as personagens. O ficcional se desenvolve na construção das personagens, nas ações e diálogos das mesmas, sendo alguns fatos também imaginados. A partir dessa criação, percebem-se as estruturas narrativas criadas, que buscam produzir um efeito de sentido de “verdade”. Dessa forma, nota-se que ao retomar a epígrafe camoniana e o tempo histórico em seu romance, conforme disserta Duarte (1996), Jorge Amado tenta deixar clara sua intenção de construir um panorama histórico dos primeiros anos do Estado Novo, em que destaca a interferência do imperialismo na política e na economia do país, o autoritarismo de Vargas e a luta do proletariado. Deve-se ressaltar, portanto, que essa escritura da História, apesar de ficcional possui um aspecto de denúncia e, conforme Duarte (1996), de uma visão partidária e panfletária do autor.
Essa narração da história tenta mostrar as possíveis inquietações e dúvidas que existiram antes do momento histórico do golpe. No fragmento abaixo, apresentam-se as preocupações do deputado Artur Carneiro em relação às eleições que ocorreriam para presidente, nas quais os candidatos eram Getúlio Vargas, que exercia a função de presidente provisório; Armando Sales, representante paulista; e José Américo, candidato do Rio Grande do Sul. Percebe-se que o deputado previa ou suspeitava dos acontecimentos que mudariam a política nacional:
Sim, outubro fôra um mês de más notícias, de indesejáveis acontecimentos. Um clima nervoso de incerteza andava pelo ar, dominava os políticos e dele se despendia um indefinível sentimento de medo, medo de qualquer coisa que iria fatalmente acontecer de um momento para outro sem que nenhuma pessoa pudesse evitar. Ninguém precisava o que seria, mas por que diabo ninguém acreditava tampouco que as eleições se realizassem? [...] (OSL, I, 23)
Pode-se dizer que essas incertezas do deputado são provenientes de acontecimentos anteriores, tais como a Revolta de 1930 e o levante paulista de 1932. Segundo Skdimore (2003)5 , em 1930, Getúlio Vargas, unido a representantes do exército e do Estado de Minas Gerais, realizou um ataque ao governo federal de Washington Luís. Getúlio era candidato à presidência sendo seu concorrente Júlio Prestes. Desconfiada da contagem de votos que dava a vitória a Prestes, a oposição resolveu organizar um golpe antes da posse do presidente supostamente eleito. Getúlio, então, passou a governar provisoriamente o país e nomeia para os Estados interventores, porém, para São Paulo, o presidente designa o não-paulista, João Alberto Lins de Barros. Os políticos e a imprensa paulista hostilizaram o interventor e decidiram combater os novos poderes. Foi dessa forma que, em 1932, os paulistas resolveram lançar uma revolta, conhecida como Revolução Constitucionalista, porém logo o levante se dissolveu. Esse fracasso na Revolução trouxe aos políticos paulistas um grande descrédito em todo o país, afastando-os, assim, durante três décadas da presidência.
Esse relato histórico se faz necessário para que se compreenda o retrocesso da narração a partir da recordação das personagens e das várias citações que são realizadas durante os diálogos, como o que segue abaixo, em que o deputado Artur e o banqueiro Costa Vale comentam sobre essas datas. Verifica-se também que existiam planos de realização de um golpe, tanto de Getúlio Vargas como de seu adversário, Armando Sales. No diálogo que se segue, é possível perceber os problemas que infligiram os paulistanos nos anos 1930 e 1932:
[...] Vocês já apanharam em 1930, em 1932 e vão apanhar agora...
[...] - Não vai ser tão fácil assim.... Nós também temos cabeça e desde que Getúlio começou a ameaçar com o golpe, nós começamos a nos preparar também. Tu dizes que Londres não pesa mais. Pois bem, José, foi na Embaixada inglesa que me deram, detalhe por detalhe, todo o plano de Getúlio, suas conversas com os integralistas, e o conselho de nos prepararmos por nosso lado... É o que estamos fazendo; há gente boa do Exército na brincadeira, nós e o Rio Grande do Sul. Podemos voltar aos tempos de antes de 1930... (OSL, I, 54)
No trecho que segue, do historiador Skidmore (2003), percebe-se como a data de 1930 marcou uma mudança na política brasileira:
Os perdedores em 1930 eram numerosos. Primeiro havia os caciques do Partido Republicano de São Paulo, que haviam apoiado Júlio Prestes. Segundo havia os altos comandantes do Exército, cuja maioria se viu sumariamente aposentada. Terceiro havia os banqueiros, que tinham insistido para que o Brasil aderisse ao padrão ouro, e agora viam seus vínculos financeiros no exterior gravemente desgastados pela mudança abrupta de governo. (p.155)
Observam-se a partir desses trechos da narrativa literária e da histórica as diferenças e semelhanças entre ambas. No trecho do discurso histórico são apresentadas as conseqüências da Revolução de 30 aos perdedores, enquanto que no discurso literário narra-se a possível aliança entre os vencidos. Tanto a narrativa histórica como a literária mostram um mesmo fato, porém com perspectivas diferentes. Dessa forma, pode-se dizer que a semelhança está no fato escolhido e a diferença, na forma de narrar.
Ainda no discurso literário, percebe-se que o autor focaliza, primeiramente, a apreensão do deputado diante das eleições que poderiam não acontecer e, na seqüência, mostra que o mesmo também articula um golpe. Dessa forma, o autor revela que as preocupações do deputado não eram relacionadas ao não acontecimento das eleições, mas sim ao fato de o golpe ser realizado pela oposição. Ao analisar-se o diálogo, pode-se partir do princípio de que a presença do banqueiro representaria a racionalidade, ou seja, Costa Vale consegue encadear os fatos históricos de uma maneira lógica, que comprova a derrota do partido do deputado. O banqueiro teria essa visão por não pertencer a nenhum partido, pois seu compromisso seria com os investimentos e o acúmulo de dinheiro, independentemente de quem fosse o governante.
Pode-se dizer, portanto, que o autor, ao citar aleatoriamente datas históricas, situa o leitor dentro de um tempo específico, sendo, no primeiro tomo, a época de 1930 a 1938. Dessa forma, o autor imagina e insere suas personagens nas principais datas históricas de antes do golpe. Esse procedimento torna as ações das personagens verossímeis aos acontecimentos futuros, bem como trazem a perspectiva dessas em relação às mudanças que aconteciam no país.
Essa estrutura narrativa que encadeia os fatos anteriores ao tempo presente é um recurso utilizado pelo escritor nos três tomos; assim, têm-se os diálogos e recordações das personagens que retomam o “antes do golpe de Vargas” no primeiro tomo. As coligações partidárias entre integralistas e armandistas aparecem no segundo tomo, antes da tentativa de tomada do poder pelos oposicionistas de Vargas. Finalmente, no terceiro tomo, vê-se as personagens se encaminhando para o julgamento de Prestes. Percebe-se, por meio dessa estrutura, que o autor não insere apenas o fato histórico na narrativa, existe o encadeamento de ações que seguem os fatos históricos. Pode-se dizer que esta seria uma das possíveis diferenças entre o discurso histórico e o literário: marcar uma intenção no recorte dos fatos históricos.
Nesse primeiro capítulo, percebe-se também a construção de três núcleos distintos de personagens: o núcleo dos capitalistas, representado pelos políticos armandistas e integralistas, pelos banqueiros, latifundiários e empresários; o núcleo dos comunistas, personagens que aceitam o ideário do Partido Comunista e militantes e, por fim, o núcleo das personagens que representam os a-partidários, que não possuem conscientização política, os imigrantes, os operários, os camponeses e os caboclos.
A partir dessa divisão da narrativa em três núcleos, que representam classes sociais e políticas, nota-se que os elementos históricos relacionam-se aos fatos políticos e sociais da época6.
No segundo capítulo do primeiro tomo, a narração retoma o fato histórico do golpe de Estado. Primeiramente, insere-se uma visão desse fato no âmbito internacional, especificamente no Uruguai: “A notícia do golpe de Estado alcançou Apolinário [...]” (OSL, I, 121). Apolinário era um tenente que tinha participado da insurreição de 19357, cumpriu dois anos de prisão e, após ser posto em liberdade, recebeu a missão, dada pelo partido, de lutar na guerra civil espanhola8. Para viajar até a Espanha sem ser descoberto, Apolinário precisou ir para o Uruguai. Ao chegar ao país o tenente foi informado pelo uruguaio Pedro sobre os acontecimentos no Brasil. No fragmento que segue está o relato do uruguaio ao tenente:
- E's verdad, yo habia olvidado. Pues, yo le conto [sic]: don Vargas disolvió el Parlamento, anuló la Constitución, terminó con la campaña lectoral. El habló por la radio pero yo no sé lo que dijo, no estaba en casa. Ese don Getulio es un diablo, no hay persona que pueda con él... (OSL, I, 123)
A narrativa prossegue apresentando aos poucos como cada núcleo reagiu diante do golpe, tentando construir, dessa forma, não somente o fato histórico, mas várias perspectivas sobre um mesmo momento; entretanto, esses diferentes olhares passam pela visão do autor.
As diferentes ações e reações das personagens diante do fato histórico podem ser observadas nos fragmentos abaixo, sendo que, no núcleo capitalista há uma descrição sobre o dia anterior:
No dia nove à noite, Costa Vale, de volta a São Paulo, conversara com Marieta. Perguntara-lhe quais seus compromissos para o dia seguinte. Ela enumerou uns quantos: o cabeleireiro, a costureira, um chá com Paulo [...]
- Cancele tudo, minha cara. O melhor é não sair de casa amanhã. Pode haver desordens pela cidade. Amanhã Getúlio dará o golpe de Estado. (OSL, I, 131)
Em vista disso, o narrador mostra a atitude de Costa Vale diante do golpe e em seguida mostra a reação do gerente que trabalha no banco. Há nesse fragmento a colocação de duas atitudes diferentes diante de um mesmo fato, não deixando de observar que se trata da perspectiva de um proprietário e de um empregado:
No dia do golpe, Costa Vale saiu como de hábito para o seu escritório no banco, à mesma hora de sempre. E estava fechado em seu gabinete, numa importante conferência com a Comendadora da Torre, quando alguém bateu nervosamente na porta. Levantou-se para abrir, a Comendadora estudava, com uns olhos extremamente interessados, um mapa traçado por mão competente, cheio de riscos, de pontos, de sinais.
Na porta aberta apareceu a assustada figura do gerente, dizendo numa voz balbuciada:
- Os rádios estão anunciando um golpe de Estado. O Exército está na rua, patrulhando a cidade. Falam que o governador foi preso...
A Comendadora voltou-se num interesse excitado:
- Golpe de Estado? De quem? Fala, homem, diz o que sabe.
Mas Costa Vale atalhou a onda de notícias e boatos que o gerente se preparava para revelar:
- Não tem importância, Comendadora. Quem não sabia há muito tempo que Getúlio não ia permitir as eleições? (OSL, I, 132, grifo nosso)
No núcleo dos comunistas, a agitação e a organização entre eles são apresentadas pela personagem Mariana:
Nesse dez de novembro de 1937, Mariana voltou a pichar as ruas. [...]
[...] Tinha sido um agitado dia, os jornais lidos às pressas nas viagens de bonde, um ódio fechando a garganta, a visão desagradável dos desfiles integralistas pela cidade, dos soldados em patrulha, dos carros da polícia passando velozmente. [...]” (OSL, I, 163-164)
O narrador mostra constantemente os três núcleos vivendo o mesmo momento histórico, mas em posições sociais e políticas diferentes, portanto tendo visões e reações distintas em relação aos acontecimentos. Dessa forma, o autor constrói o fato histórico pelo discurso literário, sendo que essas diferentes perspectivas podem revelar que nenhum discurso apresenta uma verdade factual, mas apenas um ponto de vista em relação ao fato ocorrido, como nessa explicitação da professora Ana Lúcia Trevisan Pelegrino em sua tese de doutorado O espelho fragmentado de Terra Nostra: Literatura e História na narrativa de Carlos Fuentes (2004), que mostra como a realidade depende da perspectiva de quem a percebe e da maneira que a constrói discursivamente:
(...) Temos uma mesma história interpretada dezenas de vezes. É uma realidade vista, vivida e apresentada de forma plural. A afirmação de que a realidade não é linear pode justificar-se quando percebemos a realidade de forma fragmentada, ou seja, através das possibilidades de percepção dos diferentes sujeitos e seus discursos correspondentes, elaborados distintamente e traduzindo realidades paralelas. O real seria, para cada um, algo distinto do que para é o outro; não apenas como interpretação mas também como experiência concreta em si mesma. (p.86-87)
Nota-se, portanto, que o autor busca em sua narrativa mostrar diversos olhares sobre um mesmo fato histórico, porém, como se verá no capítulo sobre o engajamento na obra, essa construção da história afirma o envolvimento do autor com o Partido Comunista Brasileiro; no entanto, percebe-se que o escritor cria a partir da imaginação elementos ficcionais que remetem de forma verossimilhante aos fatos históricos, tornando, assim, a narrativa coerente dentro do discurso literário.
Nessa construção da história por meio das perspectivas das personagens, o autor imagina como eram realizadas as negociações entre os capitalistas e os investidores internacionais, sendo esse momento representado pelo banqueiro Costa Vale. No fragmento abaixo, o banqueiro pensa sobre as vantagens da ditadura e, no final, indaga sobre a utilização dos recursos para a destruição da União Soviética, apresentando, dessa forma, as divergências existentes entre os ideais capitalistas e os comunistas:
E o dez de novembro tinha chegado, os soldados estavam na rua, a ditadura se estabelecera. Já não poderiam os jornais gritar, exigir rios de dinheiro por um silêncio cúmplice, já os deputados da oposição não teriam tribunas de onde fazer escândalo, tudo era melhor e Costa Vale, da sacada do último andar do edifício do seu banco olhava com simpatia os soldados de baioneta nua sobre o fuzil, patrulhando as ruas comerciais. Conseguida a concessão, lançada a empresa, americanos e alemães teriam de vir a ele, fazer-lhe suas propostas, pagar o que ele pedisse pelo manganês encravado entre os rios, a floresta e a febre. E porque [sic] não os dois ao mesmo tempo, os americanos e os alemães, se certamente amanhã estariam juntos na guerra contra a URSS, e aquele manganês serviria para liquidar com os bolchevistas? (OSL, I, 145)
Verifica-se que essa seqüência histórica e literária exige do leitor um conhecimento de mundo sobre a história mundial da época, para que, assim, possa compreender os nomes e datas citados durante a narrativa. Existem momentos na narrativa que podem trazer várias dúvidas ao leitor, o qual terá que, constantemente, relacionar datas, nomes e lugares.
Após a inserção que o narrador faz do leitor no macrocosmo histórico, a narração torna-se menos datada, mas os acontecimentos prosseguem relatando momentos históricos posteriores ao golpe de Getúlio. Existe, no entanto, certa dificuldade em acompanhar as repercussões dos fatos imaginados com os “reais”. Aqui, deve-se ressaltar que conforme Umberto Eco (1994) disserta, a ficcionalidade remete a uma certa “verdade” incontestável, enquanto os fatos “reais” informados pelos noticiários e outras fontes podem ter sua “verdade” contestada, sendo assim, o leitor deveria ler o romance como uma “verdade” ficcional, mas ao encontrar os elementos extratextuais - o tempo histórico, as personagens históricas, os fatos históricos - a verdade ficcional passa a se enfrentar com a histórica, contestando, portanto, a mesma.
No terceiro capítulo, ainda do primeiro tomo, há uma mudança espacial e temporal: “Nos começos daquele ano de 1938, o sírio atravessara com seus burros, mais uma vez, as montanhas para atingir a civilização distante, levando o café, o milho e a farinha.” (OSL, I, 199). Aqui, percebe-se que o leitor subitamente é levado para outro ambiente que mostra diferenças culturais entre as personagens, mas que se subdivide, novamente, nos três núcleos anteriormente descritos: capitalista, representado pelos latifundiários; comunista, pelos militantes; e dos a-partidários, que são os camponeses e caboclos.
Atendo-se ao fragmento acima, percebe-se que a mudança de tempo ocorre, primeiramente, no vale do Rio Salgado. O narrador mostra uma distinção entre os habitantes do vale que representariam a barbárie e os demais, que são a civilização, mostrando, dessa forma, a distância não só de espaço, mas também cultural existente entre produtor e consumidor: “[...] atravessara [...] as montanhas para atingir a civilização distante [...]” (OSL, I, 199).
Neste trecho “[...] Foi só então que o revolucionário e os demais habitantes do vale souberam do golpe de Estado dado em dez de novembro de 1937, mais de três meses antes. [...]” (OSL, I, 200) observa-se como os moradores do Rio Salgado estavam alheios aos acontecimentos das outras regiões do país devido à falta de comunicação e à distância entre os Estados. Esse também é um fator histórico, pois, na época, não se possuíam elementos tecnológicos que facilitassem a comunicação entre os Estados.
Ao apresentar uma visão exterior dos acontecimentos, o narrador mostra cada personagem diante do mesmo fato como se possuísse uma câmera cinematográfica que focaliza cada ação em um mesmo momento. A partir dessa técnica, o leitor é levado aos diversos espaços, aos momentos históricos e aos imaginados, que seguem uma mesma linha temporal. Dessa forma, o panorama histórico aparenta ser construído por uma pluralidade de vozes.
Mesmo seguindo a linha temporal histórica, pode-se perceber que a ficcionalidade se diferencia da historicidade ao buscar uma ambientação dos fatos e das datas históricas, como é possível perceber no fragmento abaixo:
Uma chuva fina começara a cair sôbre a cidade após o meio-dia fazendo desaparecer certo ar de festa emprestado à manhã pelos soldados formados para a revista, na Avenida São João, pelas bandeiras nos mastros, pelos curiosos que tinham vindo espiar a cerimônia militar. A cidade estava tranqüila na hora da sesta, apenas alguns caminhões transportavam gente para o “stadium” onde devia realizar-se às 3 horas o anunciado comício, seguido de um jôgo de futebol. Como a entrada era grátis e o jôgo se disputava entre os clubes campeões do Rio e de São Paulo, bastante gente marchava em caminho do campo de esporte. Algumas pessoas, porém, começaram, por volta das duas horas, a destacar-se dos grupos que rumavam para o “stadium” e dirigiram-se para o Palácio dos Campos Elísios onde o ditador estava hospedado. (OSL, I, 282)
No fragmento acima há uma marca do tempo, do espaço e do evento que se realizava, sendo esses aspectos literários os elementos que buscam traçar um ambiente na imaginação do leitor. Essas descrições não são apresentadas na narrativa histórica, pois a história mostra o fato objetivamente; no entanto, o macrocosmo da descrição é a história, ou seja, o momento histórico em que Getúlio Vargas visitou São Paulo como ditador. Nota-se também, a partir da descrição, que cada pessoa caminha em uma direção, portanto podia perceber os acontecimentos em ângulos diferentes, ou seja, criava formas distintas de observar o mesmo momento. Neste romance, pode-se dizer que como essas personagens que vivenciavam o momento de diferentes formas, tem-se o escritor que narra os fatos históricos por meio de sua percepção, levando suas vivências e recordações do passado para dentro da narrativa, diferentemente do historiador, que recolhe documentos e pesquisa fazendo escolhas para narrar os fatos, dessa forma distanciando-se do momento narrado.
No segundo tomo, a estrutura narrativa segue a seguinte estruturação: momentos anteriores aos fatos históricos, fato histórico e sobreposição das diferentes visões das personagens em relação aos fatos. Essa estruturação esquematizada da narrativa revela um paradoxo dentro da obra. O escritor parece narrar a história a partir de uma pluralidade de vozes, por isso são apresentadas as diferentes visões de cada núcleo durante o momento histórico, no entanto, atendo-se à repetição da estrutura e das ações das personagens, que seguem a seguinte forma: o núcleo capitalista aparece manipulando o governo e a polícia, perseguindo o Partido Comunista e oprimindo os operários; o núcleo comunista combate esses, sofrendo privações econômicas e sendo torturados. Ao mesmo tempo, busca conscientizar o núcleo a-partidário de seus direitos. Dessa forma, percebe-se que as visões não se diferenciam, seguem um esquema de bons e maus, trazendo, portanto, uma univocidade da voz na narração, que apresenta uma forte inclinação ideológica, que demonstra o engajamento do autor. A narrativa, assim, mostra que Jorge Amado teve a intenção de narrar a História “pelo avesso”, mostrando os bastidores e contando a história não-oficial, mas ao mesmo tempo fez da narrativa um meio de difundir a mensagem comunista (DUARTE, 1996). Essa escolha do escritor, no entanto, transformou a pluralidade de vozes das personagens em uma única, a do partido.
Percebido esse aspecto da estruturação narrativa, nota-se que se repete esse esquema no segundo tomo, como no fragmento do diálogo entre Alves Neto e Saquila, que comentam os planos sobre o golpe armando-integralista impetrado contra Getúlio em maio de 1938:
[...] Já lhe disse que o que desejamos é um golpe inesperado e decisivo. E rápido, antes de tudo rápido. Uma luta longa, seu Saquila, a gente sabe como começa mas não como vai terminar. Lembre-se de 1932. Não vamos repetir aquela besteira. [...] (OSL, II, 233)
No trecho acima, aparece, mais uma vez, a referência à Revolução Constitucionalista de 1932, bem como a construção imaginária de um diálogo que mostra os planos para a realização de um golpe entre integralistas, armandistas e o dissidente do Partido Comunista, Saquila. O autor, portanto, segue o esquema narrativo anteriormente citado: um “antes” que será o elo entre a data histórica e a criação ficcional.
Um dado importante na narração desse momento histórico é a imaginação de uma suposta aliança entre os grupos de oposição política armandista e integralista para a realização do golpe contra Getúlio. O autor, dessa forma, faz o leitor repensar o que realmente ocorreu na época, e, logicamente, sobre o que se escreveu do momento histórico, afinal os planos políticos arquitetados por grupos podem não ser apresentados no âmbito da narrativa histórica, que se atém aos documentos que comprovam os fatos.
O momento da tentativa do golpe armando-integralista também envolve os três núcleos das personagens. No fragmento abaixo, tem-se a narração do momento em que o comunista João recebe a notícia:
[...] Tomara o trem há dois dias em Campo Grande, [...] Olhou em tôrno e viu os passageiros disputando, na plataforma da estação, os jornais de São Paulo, daquela manhã. Através a [sic] janela, leu um titulo: “TENTATIVA DE GOLPE INTEGRALISTA” [...]
[...] Comprara as edições extraordinárias dos jornais, ficara sabendo que os integralistas, aliados a elementos “armandistas” haviam tentado, na noite passada, um “pustch” contra o governo. Tinham atacado, de surpresa, o palácio Guanabara, residência do presidente da República, e não haviam matado Vargas por pouco. O ditador, com o auxílio de seus guarda-costas conseguira resistir, até a chegada de reforços. Lutas tinham-se travado em várias partes, especialmente no Arsenal de [sic] Marinha, onde os inferiores do Batalhão Naval fizeram abortar a tentativa de levante entre os oficiais integralistas. O golpe fracassara, havia muita gente presa, dirigentes integralistas e certos políticos ligados a Armando Sales. [...] O paradeiro de Plínio Salgado parecia, segundo outro jornal, ser desconhecido das autoridades que buscavam o chefe da Ação Integralista, para saber até onde ele se encontrava envolvido no “complot” [...] (OSL, II, 285-286)
Nesse trecho, percebe-se que a narrativa se atém aos fatos, isto é, ao que aconteceu no momento da tentativa do golpe. Nota-se que a narração se fixa no fato histórico acrescentando a aliança dos grupos armandistas e integralistas. No trecho abaixo, do historiador Skidmore (2003), verifica-se como o mesmo fato é narrado:
[...] Em resposta um grupo de integralistas armados tentou seu próprio golpe em março de 1938, atacando o palácio presidencial onde Getúlio dormia. No meio da noite, os integralistas armados (ajudados por guardas palacianos desleais) penetraram nos jardins do palácio e começaram a atirar no prédio principal. O que se seguiu foi mais uma comédia do que um combate. Getúlio e sua filha Alzira, então com 23 anos de idade, apareceram na janela e responderam ao ataque. Os integralistas hesitaram e organizaram um cerco. Demorou até o amanhecer para chegarem reforços governamentais, com Alzira telefonando freneticamente para os comandantes militares. Os atacantes sobreviventes (pelo menos quatro foram mortos) foram rendidos e levados à prisão. Getúlio tinha agora a desculpa perfeita para reprimir os integralistas, além dos comunistas. Plínio Salgado procurou asilo em Portugal e o Brasil ficou sem nenhuma alternativa organizada à nova ditadura.” (p.162)
Ainda sobre o mesmo fato, verifica-se no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – CPDOC da Fundação Getúlio Vargas:
[...] Após a fracassada tentativa de golpe, cerca de 1.500 integralistas foram presos só no Rio de Janeiro. Entretanto, a repressão não foi tão drástica como seria de se esperar. Enqu