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A narrativa literária e histórica na obra

A narrativa literária e histórica na obra, fatos históricos, personagens fictícios, realidade e ficção, Romance histórico. Literatura brasileira. Era Vargas. Jorge Amado.

 

RESUMO


Jorge Amado, em seu romance Os subterrâneos da liberdade (1954), conta a história “não oficial” da época da ditadura Vargas. A transposição dos elementos históricos para a narrativa ficcional mostra as semelhanças e diferenças entre o discurso literário e o histórico. Os fatos históricos são vivenciados por diferentes personagens de núcleos sociais distintos. A profusão de vozes dessas personagens, no entanto, não traz uma pluralidade de pontos de vista, mas a voz unívoca do próprio autor, que busca difundir as idéias do Partido Comunista Brasileiro. No desenvolvimento do romance percebe-se uma esquematização maniqueísta expressa na construção das personagens e na própria construção da narrativa. O romance mescla os fatos históricos com as personagens ficcionais, logo, a verdade se junta a ficcionalidade, criando um conjunto de intencionalidades sensíveis às idéias políticas defendidas pelo autor. Jorge Amado apresenta a História da ditadura varguista, acrescentando elementos ficcionais e sua perspectiva a respeito dos fatos históricos, que está marcada pela intencionalidade ideológica do Partido e, assim, não escapa, em muitos momentos, da propaganda dos ideais comunistas.


Palavras-chave: Romance histórico. Literatura brasileira. Era Vargas. Jorge Amado.









RESUMEN


Jorge Amado en su novela Os subterrâneos da liberdade (1954) cuenta la história 'no oficial' de la época de la dictadura Vargas. La transposición de los elementos históricos para la narrativa ficcional juega con las semejanzas y diferencias entre el discurso literario y el histórico. Los hechos históricos son “vividos” por diferentes personajes de núcleos sociales distintos. La profusión de voces de esos personajes, sin embargo, no conduce a una pluralidad de puntos de vista, sino a la voz unívoca del propio autor, que busca difundir las ideas del Partido Comunista Brasileño. En el desarrollo de la novela se percibe un mecanismo maniqueo expreso en la construcción de los personajes y en la propia construcción de la narrativa. La novela mezcla personajes y hechos históricos con personajes ficcionales luego la veracidad se junta a la ficcionalidad, creando una bloque de intencionalidad sensible a las ideas políticas defendidas por el autor. Jorge Amado presenta la Historia de la dictadura varguista, añadiendo elementos ficcionales, su perspectiva a respecto de los hechos históricos está marcada por la intencionalidad ideológica del Partido y, así, no escapa, en muchos momentos, de la propaganda de los ideales comunistas.


Palabras claves: Novela histórica. Literatura brasileña. Era Vargas. Jorge Amado.


1 INTRODUÇÃO


O presente trabalho analisa a construção da narrativa literária e da narrativa histórica configuradas no romance Os subterrâneos da liberdade1, de Jorge Amado, o qual foi publicado no ano de 1954, em três tomos com os seguintes subtítulos: Ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel, sendo todos os volumes publicados pela editora Livraria Martins.

As fusões existentes no romance dos elementos ficcionais e dos elementos históricos são recorrentes durante todo o romance. Dada a importância das diferenças e semelhanças das formas de narrar do discurso histórico e do literário, fez-se necessária uma análise dos fatos históricos apresentados na obra, bem como de sua construção na narrativa ficcional. Percebe-se que o escritor faz uma nova escritura da História do Brasil da época da ditadura Vargas, e também narra “o processo de crescimento político das massas no confronto com os donos do poder.” (DUARTE, 1996, p.209). Dessa forma, verifica-se que a construção narrativa se baseia na escritura ficcional da História do Brasil centrada nos aspectos políticos e econômicos da época de 1937 a 1940, período em que se desenvolve a narrativa.

Segundo Eduardo de Assis Duarte, em sua obra Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1996), essa escritura ficcional “constitui o ponto extremo do engajamento amadiano” (p.209), pois, como verificar-se-á neste estudo, o autor busca elevar os valores partidários do Partido Comunista Brasileiro, denegrindo o sistema capitalista vigente.

Devido a essa ideologia partidária muito explícita, o romance é considerado por vários críticos brasileiros como “literatura de cunho panfletário”2 , portanto não é uma das obras do autor que possui um grande impacto junto ao público, e pode ser considerada como a representação de um segundo momento do autor, que após esse romance passou a escrever romances mais populares, como Gabriela, Cravo e Canela (1958), que apresenta personagens do nordeste de forma pitoresca e sensual. Essa fase do autor é a mais conhecida e referenciada, sendo que algumas dessas obras foram adaptadas para a televisão e para o cinema.

Diferentemente das obras pós-1954, as personagens construídas no romance em estudo são descritas por meio de seus ideais políticos e sociais. Isso revela os conceitos principais que constituem a obra, um momento histórico de repressão política, realizada pela ditadura Vargas, e os ideais políticos que o autor defendia.

Neste trabalho, portanto, são estudados aspectos pouco conhecidos dos leitores, isto é, uma fase em que o autor narra a história e a política da época de 1937 a 1940 por meio da ficção; trazendo, assim, uma escritura da história “não-oficial” (DUARTE, 1996, p.211).

No romance, as referências aos nomes históricos, a Estados do Brasil e a países, tais como Espanha, Alemanha, Japão e outros, são freqüentes. Os elementos geográficos e históricos são misturados à ficção, a ponto de o leitor não conseguir compreender qual a fronteira que separa a ficção e a história. Essa mistura do “real” e da imaginação, isto é, da história e da ficção permeia toda a obra, forçando o leitor a relacionar o romance com a história da época e refletir sobre a construção da história aceita como oficial.

No desenvolvimento da narrativa percebe-se que os elementos ficcionais e históricos estão intrinsecamente ligados. Essa fusão do ficcional e da história revela uma fronteira entre o imaginado e o supostamente “real” que permeia toda a obra. Esse elo entre o discurso histórico e o ficcional traz à tona uma problemática entre a narrativa histórica e a literária que são estudadas por Hayden White, que disserta sobre as semelhanças de construção das duas narrativas, e pelo crítico Walter Mignolo, que apresenta as convenções estabelecidas entre os discursos histórico e literário, mostrando suas diferenças e semelhanças. A partir desses dois estudiosos são analisados fragmentos do romance que mostram as fusões dessas diferentes formas de narrar um mesmo fato.

Como referencial teórico literário, também há referências ao livro de Umberto Eco, Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), no qual é possível perceber a função do texto literário em relação à realidade e à imaginação.

Quanto aos estudos literários, verificam-se os estudos de Antonio Candido, em Sociedade e Literatura (1965), e de Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira (1975). A partir desses críticos da literatura brasileira faz-se um breve levantamento dos acontecimentos históricos e literários que infligiam a época de 1937 a 1940.

No estudo do romance são analisadas as personagens, procurando-se perceber como o autor utilizou-se da memória e de seus ideais políticos para a criação das mesmas. Nessas análises, foram utilizados os estudos de Anatol Rosenfeld e Antonio Candido na obra A personagem de ficção (2000) e também as definições realizadas por Beth Brait a respeito da tipologia das personagens.

Visando analisar o engajamento e a ideologia partidária do autor, que permeiam a estrutura narrativa e a criação das personagens, foi realizado um estudo da obra de Jean Roche, Jorge bem / mal Amado (1995), um estudioso das obras amadianas, bem como do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1996), que percorre várias obras de Jorge Amado, mostrando as diferentes fases do autor e, também, a dissertação de Fabiana Biutor Carelli, Porões da memória: ficção e história em Jorge Amado e Graciliano Ramos (1997). A partir das definições por esses autores apresentadas, foi analisada a forma ideológica com que o autor criou as personagens, revelando na narrativa seu engajamento partidário. Dessa forma, pretende-se compreender as linhas convergentes e divergentes entre a Literatura e a História dentro da obra analisada, como também perceber a escritura da história por meio da perspectiva do autor.
























2 PERSPECTIVAS TEÓRICAS: AS RELAÇÕES ENTRE HISTÓRIA E FICÇÃO


No romance Os subterrâneos da liberdade (1954) percebe-se a junção da história e da ficção, revelando, dessa forma, uma fronteira que separa e ao mesmo tempo une o “real” e o imaginado. A fim de compreender essa fronteira entre os elementos ficcionais e os elementos históricos que permeiam a obra, ou seja, as relações que se estabelecem entre Literatura e História, buscou-se a compreensão dos estudos de Hayden White e Walter Mignolo.

Hayden White em seu ensaio de 2001, O texto histórico como artefato literário, define a narrativa histórica como

ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências (p.98).


Essa definição de White traz à tona um dos principais eixos das relações entre História e Literatura. White, inicialmente, apresenta em seu ensaio a reflexão de Northrop Frye, que parte do entendimento de que o historiador trabalha indutivamente e busca os fatos por meio de pesquisas e relatos da vida real, diferentemente do literato, que narra a partir da sua imaginação. White complementa essa reflexão de Frye dizendo que, mesmo com essa busca de fatos em lugares opostos, a estrutura da narrativa histórica se assemelha à narrativa literária, pois ambas são concebidas a partir de uma ordenação dos fatos e de uma seleção do tipo de enredo para que se tornem compreensíveis ao leitor.

Nesse ensaio, White mostra que o conjunto de acontecimentos históricos registrados e colhidos pelo historiador não podem, isoladamente, constituir uma narrativa histórica, pois são apenas elementos da história. Segundo White (2001), esses acontecimentos serão

[...] convertidos em estória pela supressão ou subordinação de alguns deles e pelo realce de outros, por caracterização, repetição do motivo, variação do tom e do ponto de vista, estratégias descritivas alternativas e assim por diante – em suma, por todas as técnicas que normalmente se espera encontrar na urdidura do enredo de um romance ou de uma peça [...] (p.100)


A estrutura narrativa histórica, portanto, é composta não só de acontecimentos “reais”, mas também pela ordenação desses acontecimentos, ou seja, o mesmo conjunto de eventos poderá servir como componente de uma história trágica ou romântica; isso dependerá da escolha da estrutura de enredo que parecer melhor ao historiador para ordenar tais eventos, como explana White (2001):

[...] a maioria das seqüências históricas pode ser contada de inúmeras maneiras diferentes, de modo a fornecer interpretações diferentes daqueles eventos e a dotá-los de sentidos diferentes [...] (p.101)


A partir desse conceito desenvolvido por White, este estudo analisa a construção da História do Brasil da ditadura Vargas, de 1937 a 1940, na obra de Jorge Amado, na qual o autor destaca na ficcionalidade do seu romance datas históricas e nomes reais, relacionando, dessa forma, fatos históricos e fatos ficcionais.

Conforme White (2001), o historiador busca se basear em coletas de dados e informações “reais” para criar sua narrativa histórica, no entanto ele terá que reconstruir esse momento passado através de um discurso em prosa, que tentará mostrar ao leitor a forma original das ocasiões utilizando-se apenas de uma parte dela, isto é, o original torna-se fragmentado a partir da escolha do historiador. Nesse sentido, White analisa que o estilo narrativo, na história e no romance, é construído como uma modalidade do movimento que parte da representação de um estado de momentos originais para chegar a um subseqüente; assim, analisa White (2001):

[...] O sentido básico de uma narrativa consistiria, então, na desestruturação de um conjunto de eventos (reais ou imaginários) originariamente codificados num modo tropológico, e na reestruturação progressiva do conjunto num outro modo tropológico (p.113).


White analisa que um mesmo fato histórico poderá ser recodificado de formas diferentes, gerando novas interpretações e podendo estruturar-se em um tipo de drama como satírico, romântico e trágico; no entanto, os próprios eventos não se alteram substancialmente de um relato para o outro, ou seja, os dados a analisar não apresentam uma diferença significativa nos diferentes relatos, pois o que difere são as modalidades das suas relações.

Pode-se dizer, assim, que Jorge Amado não muda os fatos históricos, porém constrói uma narrativa escolhendo os fatos, ordenando-os, destacando e ocultando outros, ou seja, cria uma história dentro de uma convenção ficcional. Como mostra White (2001):

[...] toda narrativa não é simplesmente um registro do que aconteceu na transição de um estado de coisas para outro, mas uma redescrição progressiva de conjuntos de eventos de maneira a desmantelar uma estrutura codificada num modo verbal no começo, a fim de justificar uma recodificação dele num outro modo final. Nisto consiste o “ponto médio” de todas as narrativas (p.115).


White apresenta que tanto o historiador como o romancista tentam dar sentido ao mundo real ao longo de sua evolução no tempo, tirando a obscuridade desse mundo e transformando-o em uma forma reconhecível e familiar a partir da narrativa, não importando, portanto, se esse mundo é concebido como real ou apenas imaginado, mas como se dá um sentido a ele.

Pode-se destacar, a partir desses conceitos, que há uma convenção ao longo dos anos que deu um status à narrativa histórica de representação do “real”, portanto de caráter verídico, enquanto a narrativa literária assumiu seu estado de representação do imaginado, do ficcional. Essa convenção é muito bem exposta por Walter Mignolo em seu ensaio de 1993, Lógica das diferenças e política das semelhanças da Literatura que parece História ou Antropologia , e vice-versa, no qual o autor busca uma definição de

normas historiográficas e literárias. A linguagem é empregada de acordo com as normas historiográficas (NH), ou literárias (NL), sempre que todo membro de uma comunidade especializada (científica ou artística) CmE, ao realizar uma ação lingüística, espera que os outros membros de CmE, assim como também todo membro da comunidade lingüística Cm que conhece a língua e as normas, reaja de acordo com a NL ou a NH e aceite: que o escritor ou historiador opera dentro do contexto x de historiografia, ou y de literatura, ou se opõe a eles de uma maneira que é incompreensível, porque ao opor-se, invoca-as (p.124).


A partir dessas definições, Mignolo relaciona a História e a Literatura, sendo que a linguagem literária enquadra-se na convenção de ficcionalidade; entretanto, ao deparar com o ensaio e a autobiografia, esse conceito de ficcionalidade dependerá da posição do escritor, ou seja, se o escritor for um poeta, sua autobiografia estará comprometida no mundo literário, enquanto uma autobiografia de um historiador ou de grandes políticos se compromete naturalmente nas normas historiográficas; dessa forma, Mignolo analisa que é preciso contemplar a heterogeneidade e a mobilidade dos níveis de conhecimento e a variação que ocorre entre as convenções e as normas. Mignolo (1993) mostra:

[...] A convenção de ficcionalidade não é, ao que parece, uma condição necessária da literatura, ao passo que a adequação à convenção de veracidade, ao que parece, é condição necessária para o discurso historiográfico (p.125).


Mignolo, portanto, problematiza a questão da separação entre a veracidade e a ficção, ao perceber que em uma narrativa literária poderão existir dois tipos de enunciados: o literário e o histórico. Neste estudo sobre a obra de Jorge Amado, é possível verificar essa inserção dos elementos “reais” - históricos e geográficos - na narrativa ficcional. Para solucionar esse problema, Mignolo apresenta a abordagem de Parson (1980), que distinguiu a inserção de elementos históricos dentro da narrativa literária da seguinte forma: “[...] entidades nativas e entidades imigrantes”. Mignolo segue explicando que a entidade imigrante, segundo Parson (1980), seria uma entidade já existente, cuja existência já era aceita antes que o romance fosse escrito, transportada para um mundo ficcional, no qual ela será aceita, ao mesmo tempo, como uma personagem de ficção e uma pessoa histórica. A entidade nativa, portanto, é aquela que terá sua “existência” somente no âmbito da narrativa literária, ou seja, aquela que o autor criou.

A partir desse conceito, este estudo analisa como o autor Jorge Amado trabalhou essa transposição de personagens reais para seu romance, transformando-os em entidades imigrantes, segundo Parson (1980), e que passam a ter identidade histórica e ficcional.

Mignolo (1993) explana em seu ensaio, sobre essa composição do ficcional e do histórico, da seguinte forma:

[...] A relação, portanto, entre o ficcional e a verdade não se estabelece necessariamente pela negativa (porque o ficcional não implica a mentira), mas pela própria natureza das convenções. O enquadramento na convenção de ficcionalidade apresenta as regras do jogo de forma aberta e, portanto, isenta das condições impostas pela convenção da veracidade. No entanto, quando no romance (que implica a convenção da ficcionalidade) imita-se o discurso antropológico ou historiográfico (que implica a convenção da veracidade), estamos diante de um duplo discurso: o ficcionalmente verdadeiro do autor (porque, ao enquadrar-se na convenção de ficcionalidade, não mente) e o verdadeiramente ficcional do discurso historiográfico ou antropológico imitado (porque, ao invocar a convenção de veracidade, está exposto ao erro e há a possibilidade de mentira) [...] (p.132-133)


Mignolo, dessa forma, mostra que a questão da “verdade” na ficção é apresentada quando se imita um discurso que está enquadrado na convenção de veracidade e que as linhas que separam a História e a Literatura estão muito próximas, sendo que, em alguns momentos, chegam a coincidir.

Este trabalho atem-se também à explanação que Umberto Eco faz em sua obra de 1994, Seis passeios pelo bosque da ficção, sobre a “verdade” ficcional:

É possível inferir dos textos coisas que eles não dizem explicitamente - e a colaboração do leitor se baseia neste princípio -, mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram. [...]

O mesmo grau de convicção é possível quando falamos de verdade no mundo real? Temos certeza de que não há nenhum tatu nesta sala, pelo menos na mesma medida em que temos certeza de que Scarlett O´Hara se casou com Rhett Butler. Entretanto, com relação a muitas outras verdades, só nos resta contar com a boa-fé de nossos informantes, e às vezes com sua má-fé. Em termos epistemológicos não podemos estar certos de que os americanos pousaram na Lua (contudo, temos certeza de que Flash Gordon chegou ao planeta Mongo). Vamos ser tremendamente céticos (e um pouco paranóicos) por um instante: pode ter acontecido que um grupinho de conspiradores (digamos, gente do Pentágono e de vários canais de televisão) tenha organizado uma Grande Farsa. Nós - quer dizer, todos os outros telespectadores - simplesmente acreditamos naquelas imagens que nos diziam que um homem havia pousado na Lua (p.98-99).


Umberto Eco, nessa explanação, contrasta os dados ficcionais, nos quais o leitor confia, pois conhece a convenção de ficcionalidade, com os dados que são considerados “verdadeiros”, pois podem-se buscar provas no mundo “real” para que se confirme sua veracidade. Conforme Umberto Eco (1994), o mundo ficcional se apóia no mundo real, tomando-o como pano de fundo para o leitor; ele analisa da seguinte forma:

[...] na verdade, espera-se que os autores não só tomem o mundo real por pano de fundo de sua história, como ainda intervenham constantemente para informar aos leitores os vários aspectos do mundo real que eles talvez desconheçam (p.100).


Eco mostra que o autor pode inserir o mundo visto como “real” em sua narrativa literária, misturando, assim, as duas convenções, como foi apresentado por Mignolo; neste momento, pode-se verificar que, como White mostra em seu ensaio, História e Literatura andam paralelamente na construção dos enredos, sejam eles literários (ficcionais) ou históricos (verídicos).

Ao utilizar essas teorias na análise do romance, busca-se compreender a construção narrativa de Jorge Amado, bem como a construção histórica a partir da perspectiva do autor.


2.2 HISTÓRIA E LITERATURA: REFLEXOS E CONTRADIÇÕES NO TEMPO


Para que se possa compreender o contexto literário e histórico no qual desenvolveu-se a obra Os subterrâneos da liberdade (1954), de Jorge Amado, foi feito, primeiramente, um recuo no tempo, verificando as mudanças que ocorreram na literatura e na sociedade, de 1922 a 1945.

Esse recuo seguiu a linha histórica e literária, observando que um momento é apenas a “ponta de um iceberg”, isto é, atrás de uma data histórica preestabelecida há uma seqüência de fatos que desencadearam os acontecimentos, como descreve Alfredo Bosi em seu ensaio Tempo e Tempos (1992): “[...] O antes é a semente, o germe, a raiz do depois [...]” (p.21).

Nesse retorno no tempo, percebe-se que o movimento modernista da semana de 22 rompe com as formas tradicionais, contribuindo para uma mudança estética e desencadeando uma nova geração de escritores. Dessa forma, pode-se dizer que o movimento da semana de 22, que inaugurou o Modernismo no Brasil, foi um marco no tempo, “a semente” que gerou as várias mudanças que ocorreriam posteriormente.

As transformações na literatura permanecem e, na década de 30, surge o regionalismo, que estava mais direcionado aos problemas brasileiros e acrescenta ao modernismo de 22 não somente uma mudança estética, mas também uma mudança temática.

Esse movimento literário é explanado pelo crítico Antonio Candido, em sua obra Literatura e Sociedade, como um movimento de idéias que dá início a uma literatura direcionada para “a libertação do academismo, dos recalques históricos, do oficialismo literário; as tendências de educação política e reforma social; o ardor de conhecer o país” (CANDIDO, 1965, p.148).

Historicamente, também ocorriam várias mudanças sociais, políticas e econômicas no Brasil e no mundo. Com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, várias falências foram decretadas, ocasionando fome e desemprego em vários países. Na Europa, a crise contribuiu para o fortalecimento do nazi-fascismo. Em 1933, após a 1º etapa do plano do governo Roosevelt, nos EUA, o New Deal, a crise começou a ceder; porém, na América e na Europa, esta se estendeu até a deflagração da 2º Guerra Mundial. O nazi-fascismo ganhou força com a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Japão de Hiroto, o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco; foi a época das ditaduras em âmbito mundial.

No Brasil, a crise afeta os cafeicultores, que foram obrigados a baixar o preço do café e, em 1930, acontece o golpe de Estado de Getúlio Vargas, que instaura o populismo (República Nova ou Segunda República) e substitui o Estado oligárquico, que estava preocupado com os interesses dos cafeicultores, diversificando, assim, a economia.

Devido à fraqueza das forças de oposição, o Estado assume o poder político integralmente, intervindo nos sindicatos e nomeando secretários que representavam o governo dentro desses. Dessa forma, os conflitos entre esquerda e direita se acentuaram e o governo teve seu poder contestado pelos tenentes, que propuseram reformas em nome do exacerbado nacionalismo e pela velha oligarquia cafeeira que, em 1932, tenta retomar seus antigos privilégios.

É exatamente dentro desse contexto de grandes transformações políticas e sociais que nasce a 2º fase do Modernismo, a geração de 30, na qual, segundo Antonio Candido (1965), a literatura e o pensamento deram um grande avanço, tornando a prosa liberta e amadurecida. O romance é marcado por neo-naturalismo e por inspiração popular, refletindo, em um primeiro momento, os dramas do país, tais como a decadência da aristocracia rural e a formação do proletariado, bem como luta do trabalhador do campo.

Nesta fase, junto a outros escritores, encontra-se Jorge Amado com a publicação de sua primeira obra, O país do Carnaval (1931), a qual possui marcas regionalistas e sociais da Bahia e do povo baiano, bem como da luta dos trabalhadores nas fazendas de cacau.

No âmbito da História, as mudanças econômicas e sociais continuavam. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio instaura o Estado Novo, outorgando poderes a si mesmo, nomeando interventores federais para os Estados e criando a censura prévia. Enquanto isso, no âmbito internacional, Hitler invade a Europa junto ao eixo nazi-fascista. O golpe muda a estrutura política do país, os grandes fazendeiros e os políticos do café com leite da região de São Paulo e Minas Gerais perdem o poder. A industrialização no país deu seus primeiros passos de maneira precária, contribuindo para o nascimento de uma classe operária nas fábricas paulistanas, que lutava pelos direitos trabalhistas. Nos Estados nordestinos a industrialização era algo distante, ocorria o abuso dos latifundiários, que transformaram a mão-de-obra dos camponeses em um verdadeiro regime escravocrata. Havia realidades totalmente distintas entre São Paulo e os Estados nordestinos.

Na Literatura, com a instauração do Estado Novo, segundo Candido (1965), surge a fase do Modernismo ideológico, o qual toma novos aspectos, seguindo várias vertentes: de cunho social, nas obras de Graciliano Ramos; de defesa do catolicismo, com Tristão de Ataíde; de nacionalismo voltado para a política fascista, com Plínio Salgado; e de ideologia partidária, com Jorge Amado. Todas as transformações políticas e sociais que ocorreram no mundo refletiram-se na literatura, assinalando uma nova projeção estética do Modernismo e, ao mesmo tempo, uma reação do espiritualismo literário e ideológico.

Essa trajetória literária e histórica mostra o “germe” que incitou o autor Jorge Amado a escrever o romance Os subterrâneos da liberdade (1954), no qual o autor narra a época de 1937 a 1940, enfatizando os problemas políticos e sociais que ocorreram mundialmente, mostrando acentuadamente seu engajamento político. Devido a este caráter sectário que cobre a obra, vários críticos literários incluem Os subterrâneos da liberdade (1954) em “[...] um grupo escrito de pregação partidária [...]” (BOSI, 1979, p.457).

Partindo do conceito de engajamento de Jean Roche (1995), a obra Os subterrâneos da liberdade (1954) apresenta um realismo socialista, o qual segue os modelos indicados pelo partido, e mostra de forma maniqueísta os integrantes do partido comunista, criando personagens “do bem”, que são representados na obra pelos comunistas, que lutam contra o “mal”, representado pelos banqueiros, latifundiários e pelas tradicionais famílias paulistanas que representavam a política do café com leite.

Procurando compreender melhor o romance analisado, faz-se necessária uma contextualização do autor Jorge Amado na Literatura Brasileira, a qual atenta à sua trajetória de escritor e membro partidário do PCB.

A obra de Jorge Amado, que se iniciou com uma temática regionalista, sofre mudanças com os acontecimentos históricos e políticos que envolveram o autor na época. O escritor aproximou-se cada vez mais da política e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. O engajamento político do autor refletiu em suas obras por meio da idealização do comunismo. Inicialmente, eram traços leves da ideologia partidária, como na obra Seara Vermelha (1946); no entanto, nas obras O Cavaleiro da Paz (1942) e O Mundo da Paz (1951), Jorge Amado deixa transparecer claramente seu engajamento político. Logo em seguida, é publicada Os subterrâneos da liberdade (1954), na qual também é possível verificar esse engajamento.

Neste estudo, segue-se o conceito de engajamento dado pelo autor Jean Roche, em sua obra Jorge bem/mal Amado (1995), na qual o autor faz um estudo sobre as obras de Jorge Amado, analisando, através do uso da linguagem, as obras que possuem as marcas de engajamento do autor. Jean Roche define o romance engajado:

[...] aquele em que o autor baseia sua criação sobre o seu credo, em que ele dá publicamente o testemunho desse credo, chegando às vezes até a pregação. O romance engajado é, portanto, também um ato (p. 18).


A obra engajada é muito criticada pelos estudiosos de literatura, pois parte-se da premissa de que não é apresentada ao leitor uma dialética, mas sim um monólogo, no qual o autor impõe seus ideais de sociedade. Antônio Candido, em sua obra Literatura e Sociedade (1965), conceitua as diversas transposições que ocorreram na literatura após a semana de 22 e cita como principais traços literários da fase pós-1945:

[...] Os novos manifestaram pouco interesse pela literatura ideológica de esquerda e de direita, e os que tinham vocação política desleixaram não raro a literatura, passando diretamente à militância. Desenvolve-se, deste modo, o que parece constituir um dos traços salientes dessa fase: a separação abrupta entre a preocupação estética e a preocupação político-social, cuja coexistência relativamente harmoniosa tinha assegurado o amplo movimento cultural do decênio de 30. Com a definição cada vez mais clara das posições políticas (não só entre direita e esquerda, como antes, mas dentro da própria esquerda e da própria direita), os escritores políticos se tornaram cada vez mais sectários, no sentido técnico da expressão. Tornaram-se especializados na direção propagandística e panfletária, enquanto por outro lado os escritos de cunho mais propriamente estético (sobretudo a poesia e a crítica [...]) se insulavam no desconhecimento, propositado ou não, da realidade social (p.152, grifo nosso).


A partir dessa descrição de Antônio Candido, pode-se observar que a obra Os subterrâneos da liberdade (1954) possui uma direção dada pelo autor voltada para a propaganda política e sectária.

Ao desencadear essa série de conceitos sobre História e Literatura, busca-se mostrar neste trabalho que o autor Jorge Amado trouxe a História, de 1937 a 1940, para dentro do seu romance, propondo uma forma particular de ver a história da época a partir da sua visão ideológica. Marilena Chauí, em seu livro O que é ideologia? (2001), define ideologia da seguinte forma:

A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer [...] (p.108)


Neste estudo, portanto, busca-se mostrar como o autor Jorge Amado construiu a História do Brasil na época da ditadura Vargas dentro da sua obra de ficção, na qual o autor inseriu elementos constitutivos da narrativa histórica, misturando personagens reais aos imaginados, mesclando, assim, fatos reais e ficcionais, criando a partir do seu recorte no tempo e do seu olhar uma nova perspectiva sobre o momento político e histórico por que o Brasil passava; no entanto, neste estudo salienta-se que toda essa construção ficcional realizada por Jorge Amado é executada através de representações de ideais e valores de um grupo político, no qual o autor é engajado.
 

3 A OBRA DE JORGE AMADO: OS SUBTERRÂNEOS DA LIBERDADE


A narração do romance Os subterrâneos da liberdade (1954), de Jorge Amado, relata os fatos ocorridos nos últimos dias de outubro de 1937 até o ano de 1940. Inicialmente são mostradas as preocupações do deputado Artur Carneiro Macedo da Rocha, representante da burguesia paulista, em relação às eleições que, possivelmente, não ocorreriam, devido ao golpe previsto tanto por Getúlio como por Armando Sales.

O narrador constrói aos poucos o ambiente burguês e capitalista, representado por alguns intelectuais, como o poeta Shopel, e pelos novos ricos, como a Comendadora da Torre, empresária do ramo de tecido.

Percebe-se que nessa fase não ocorre somente uma mudança de governo, mas também de capitais. Artur Carneiro representa a burguesia paulista e seus anos de tradição, mas é totalmente comandado por Costa Vale, banqueiro bem-sucedido, que negocia com os capitais americanos e constrói a empresa que irá explorar manganês no vale do Rio Salgado. Costa Vale manipula a todos com sua audácia e sempre faz comparações entre a economia americana e a alemã. Nos diálogos de Costa Vale com Artur percebe-se que a classe deste último está em decadência e quem a está substituindo são os banqueiros.

O narrador mostra a classe burguesa ressaltando a ganância, a sede de poder e a falta de amor para com os demais, além das constantes traições e das manipulações políticas entre partidos opostos, exceto o Partido Comunista.

O narrador, ao descrever os comunistas, valoriza as qualidades de lealdade e de confiança destes no Partido. São esses homens e mulheres pobres que lutam por um ideal de uma vida melhor para todos, sendo que os exemplos de militância e forma de economia sempre são buscados na União Soviética.

Os comunistas sofrem várias privações, como a fome, a tortura e até mesmo a loucura e a morte, pelo ideal do Partido. Constantemente, são presos e ameaçados de diversas formas, vivem escondidos, mas sempre possuem uma palavra de conforto e de amizade que revela traços partidários.

O narrador apresenta também personagens que, inicialmente, não possuem vínculo com nenhuma das posições acima: a capitalista e a comunista. Manuela e seu irmão Lucas representam essas personagens, mas, durante o desenvolvimento da narrativa, elas se direcionam para uma dessas posições políticas.

Manuela é uma imigrante italiana inocente e pobre que deseja dançar balé, porém é enganada por Paulo, filho de Artur, que a deixa grávida para se casar com Rosinha, sobrinha da Comendadora. Manuela é persuadida a abortar a criança pelo seu irmão Lucas, que vê na criança um obstáculo para que ele cresça financeiramente. Manuela, quando aborta o filho, conhece Mariana, comunista, e Marcos, um simpatizante do comunismo, que depois se filia ao Partido e casa-se com Manuela, que passa a ser uma moça muito mais feliz depois de conhecer o Partido.

Lucas, o irmão, nunca aceitou a pobreza, queria possuir muito dinheiro e poder, como Costa Vale, e viu seu momento de crescer financeiramente quando passou a trabalhar com o chefe do gabinete do Ministério do Trabalho. Lucas faz, então, várias transações comerciais utilizando o dinheiro da caixa de pensão e aposentadoria dos trabalhadores. Compra empresas e passa a ser um dos mais novos ricos. Alia-se a Costa Vale e quer casar-se com Alina, a outra sobrinha da Comendadora.

Todos os personagens são envolvidos pelos acontecimentos históricos que vão de 1932, que é relembrado tanto pelas personagens comunistas como capitalistas, até 1940, com a prisão de vários integrantes do Partido Comunista e o julgamento de Luis Carlos Prestes.

Os acontecimentos ocorrem em várias regiões do Brasil, sendo São Paulo uma das mais citadas, porém são narrados também momentos da guerra civil espanhola, na qual o tenente Apolinário, mandado pelo Partido, atua até o final do conflito. Referências à guerra na Polônia e na Finlândia e à invasão de Hitler na França também são apresentadas durante a narrativa.

Na região do Mato Grosso, a narrativa mostra os acontecimentos que ocorrem no momento da implantação e da exploração da empresa de Costa Vale e dos americanos no vale do Rio Salgado. Nessa região também se narra o poder dos coronéis latifundiaristas que oprimem os meeiros e camponeses em suas terras. O Partido aparece, então, como uma solução para o analfabetismo e a ignorância dos moradores do campo sobre as leis, isto é, após conhecer o Partido, o homem se torna mais consciente dos seus direitos e deveres, lutando, assim, contra a dominação americana e cobrando a divisão das terras.

No final do romance, ocorre o julgamento de Luis Carlos Prestes. A maioria dos dirigentes do Partido Comunista estão presos, mas a narrativa deixa transparecer uma idéia de recomeço, ou seja, de que a esperança de uma revolução proletária não terminaria e de que o Partido se reergueria.


4 FATOS HISTÓRICOS: AS DIFERENTES PERSPECTIVAS DAS PERSONAGENS


A narração do romance Os subterrâneos da liberdade (1954) é desenvolvida entre os anos de 1937 a 1940 e, dessa forma, reconta-se a História do Brasil, enfatizando vários aspectos políticos. Existem vários outros momentos que são revocados pelas personagens, que recordam acontecimentos importantes anteriores a essas datas; porém pode-se dizer que a narrativa prioriza os anos de 1937 a 1940.

As recordações das personagens, como verificar-se-á adiante, é uma estratégia de que o autor se utiliza para unir a história e a ficção de uma forma verossímil. Para tanto, são apresentadas várias perspectivas referentes às datas históricas de 1930, 1932 e 1935, as quais encadeiam uma trajetória de acontecimentos que mudariam a política brasileira.

O romance compõe-se de três tomos, sendo que no primeiro a narração é desenvolvida nos anos de 1937 e nos primeiros meses de 1938. São narrados os acontecimentos anteriores e posteriores ao golpe de Estado de Getúlio Vargas. No segundo tomo prossegue a seqüência dos fatos políticos, tais como o golpe dos políticos armandistas e integralistas contra o governo de Getúlio e a prisão dos comunistas, abrangendo, dessa forma, os anos de 1938 e 39. No último tomo são narradas as torturas e prisões dos comunistas, bem como dos julgamentos destes e de Luis Carlos Prestes, sendo esses momentos decorridos nos anos de 1939 e 40. Nos três tomos aparece a seguinte epígrafe camoniana

Metida tenho a mão na consciência,

e não falo senão verdades puras

que me ensinou a viva experiência


Segundo Duarte (1996), o autor busca em seu romance desmoralizar o governo de Getúlio, que perseguiu o Partido Comunista, prendeu Prestes e torturou os oposicionistas, sendo o próprio escritor vítima da ditadura de Vargas. Devido a esses fatores, o romance apresenta um aspecto de testemunho histórico e a epígrafe camoniana enfatiza essa característica ao se relacionar com o falar “verdades puras” que foram ensinadas pela “viva experiência”.

Jorge Amado utiliza-se da narrativa ficcional para contar os fatos ocorridos durante o Estado Novo; no entanto, o romance não possui um aspecto autobiográfico ou de memórias, como em Memórias do Cárcere (1954), de Graciliano Ramos. Entende-se, neste trabalho, que o escritor optou por escrever a História não oficial do Estado Novo por meio de um narrador onisciente para fortalecer a idéia de discurso histórico. Dessa forma, o autor proporcionou uma aparente abertura para mostrar diferentes vozes diante de um mesmo fato.

Para que se compreenda a estrutura narrativa, pode-se dizer que o romance é constituído de duas partes: um macrocosmo histórico que revela uma perspectiva histórica e um microcosmo ficcional que possui referentes extratextuais, porém de uma forma mais metafórica. Esse microcosmo ficcional é criado a partir da memória do autor e de sua imaginação, que cria personagens a partir do imaginário de pessoas que viviam na época.

No início do romance é possível perceber que o autor busca situar um espaço - Uma longa fila de carros atulhava o viaduto do Anhangabaú, dirigindo-se ao Teatro Municipal [...]” (OSL, I, 21) - e um tempo ficcional “[...] pensava com alegria que dentro em poucas horas aquele fatídico mês de outubro do ano de 1937 estaria terminado, talvez novembro se iniciasse sob melhores auspícios.” (OSL, I, 21) que possuem um vínculo com os acontecimentos históricos, com o ano de 1937, ou seja, há um tempo datado e representativo no âmbito da história.

Os acontecimentos narrados antes do golpe de Estado de Getúlio Vargas pertencem ao âmbito da ficcionalidade, pois o autor imagina diálogos entre as personagens que não são apresentados na história. A narrativa ficcional se apresenta a partir dos diálogos das personagens e de suas recordações, as quais remetem ao momento histórico de 1937. O leitor é inserido, primeiramente, no microcosmo literário, no qual o autor tem o compromisso de tornar o momento narrado verossimilhante aos acontecimentos que serão apresentados posteriormente, que são os fatos históricos; assim, o narrador cria uma linha imaginária que segue uma seqüência de fatos, sendo que o microcosmo literário dialoga constantemente com a história. Esse desenvolvimento da narrativa gera em alguns momentos uma fusão entre os elementos ficcionais e os históricos. A junção entre as narrativas traz ao leitor mais desprovido de conhecimentos históricos, uma dificuldade em separar o imaginado do “real”.

Observa-se, neste romance, que as convenções histórica e literária3 relacionam-se por meio da imigração4 dos elementos históricos para o literário. No entanto, para que haja essa junção da linha imaginada com a histórica, o autor precisou utilizar o recurso de criar primeiro um antes, “outubro”, o qual não possui relevada importância no universo da História. Essa construção do “antes” é constante dentro do romance, como se verificar-se-á no decorrer da análise.

Pode-se dizer que o cenário da narração ficcional é a História, bem como alguns fatos que envolvem as personagens. O ficcional se desenvolve na construção das personagens, nas ações e diálogos das mesmas, sendo alguns fatos também imaginados. A partir dessa criação, percebem-se as estruturas narrativas criadas, que buscam produzir um efeito de sentido de “verdade”. Dessa forma, nota-se que ao retomar a epígrafe camoniana e o tempo histórico em seu romance, conforme disserta Duarte (1996), Jorge Amado tenta deixar clara sua intenção de construir um panorama histórico dos primeiros anos do Estado Novo, em que destaca a interferência do imperialismo na política e na economia do país, o autoritarismo de Vargas e a luta do proletariado. Deve-se ressaltar, portanto, que essa escritura da História, apesar de ficcional possui um aspecto de denúncia e, conforme Duarte (1996), de uma visão partidária e panfletária do autor.

Essa narração da história tenta mostrar as possíveis inquietações e dúvidas que existiram antes do momento histórico do golpe. No fragmento abaixo, apresentam-se as preocupações do deputado Artur Carneiro em relação às eleições que ocorreriam para presidente, nas quais os candidatos eram Getúlio Vargas, que exercia a função de presidente provisório; Armando Sales, representante paulista; e José Américo, candidato do Rio Grande do Sul. Percebe-se que o deputado previa ou suspeitava dos acontecimentos que mudariam a política nacional:

Sim, outubro fôra um mês de más notícias, de indesejáveis acontecimentos. Um clima nervoso de incerteza andava pelo ar, dominava os políticos e dele se despendia um indefinível sentimento de medo, medo de qualquer coisa que iria fatalmente acontecer de um momento para outro sem que nenhuma pessoa pudesse evitar. Ninguém precisava o que seria, mas por que diabo ninguém acreditava tampouco que as eleições se realizassem? [...] (OSL, I, 23)


Pode-se dizer que essas incertezas do deputado são provenientes de acontecimentos anteriores, tais como a Revolta de 1930 e o levante paulista de 1932. Segundo Skdimore (2003)5 , em 1930, Getúlio Vargas, unido a representantes do exército e do Estado de Minas Gerais, realizou um ataque ao governo federal de Washington Luís. Getúlio era candidato à presidência sendo seu concorrente Júlio Prestes. Desconfiada da contagem de votos que dava a vitória a Prestes, a oposição resolveu organizar um golpe antes da posse do presidente supostamente eleito. Getúlio, então, passou a governar provisoriamente o país e nomeia para os Estados interventores, porém, para São Paulo, o presidente designa o não-paulista, João Alberto Lins de Barros. Os políticos e a imprensa paulista hostilizaram o interventor e decidiram combater os novos poderes. Foi dessa forma que, em 1932, os paulistas resolveram lançar uma revolta, conhecida como Revolução Constitucionalista, porém logo o levante se dissolveu. Esse fracasso na Revolução trouxe aos políticos paulistas um grande descrédito em todo o país, afastando-os, assim, durante três décadas da presidência.

Esse relato histórico se faz necessário para que se compreenda o retrocesso da narração a partir da recordação das personagens e das várias citações que são realizadas durante os diálogos, como o que segue abaixo, em que o deputado Artur e o banqueiro Costa Vale comentam sobre essas datas. Verifica-se também que existiam planos de realização de um golpe, tanto de Getúlio Vargas como de seu adversário, Armando Sales. No diálogo que se segue, é possível perceber os problemas que infligiram os paulistanos nos anos 1930 e 1932:

[...] Vocês já apanharam em 1930, em 1932 e vão apanhar agora...

[...] - Não vai ser tão fácil assim.... Nós também temos cabeça e desde que Getúlio começou a ameaçar com o golpe, nós começamos a nos preparar também. Tu dizes que Londres não pesa mais. Pois bem, José, foi na Embaixada inglesa que me deram, detalhe por detalhe, todo o plano de Getúlio, suas conversas com os integralistas, e o conselho de nos prepararmos por nosso lado... É o que estamos fazendo; há gente boa do Exército na brincadeira, nós e o Rio Grande do Sul. Podemos voltar aos tempos de antes de 1930... (OSL, I, 54)


No trecho que segue, do historiador Skidmore (2003), percebe-se como a data de 1930 marcou uma mudança na política brasileira:

Os perdedores em 1930 eram numerosos. Primeiro havia os caciques do Partido Republicano de São Paulo, que haviam apoiado Júlio Prestes. Segundo havia os altos comandantes do Exército, cuja maioria se viu sumariamente aposentada. Terceiro havia os banqueiros, que tinham insistido para que o Brasil aderisse ao padrão ouro, e agora viam seus vínculos financeiros no exterior gravemente desgastados pela mudança abrupta de governo. (p.155)


Observam-se a partir desses trechos da narrativa literária e da histórica as diferenças e semelhanças entre ambas. No trecho do discurso histórico são apresentadas as conseqüências da Revolução de 30 aos perdedores, enquanto que no discurso literário narra-se a possível aliança entre os vencidos. Tanto a narrativa histórica como a literária mostram um mesmo fato, porém com perspectivas diferentes. Dessa forma, pode-se dizer que a semelhança está no fato escolhido e a diferença, na forma de narrar.

Ainda no discurso literário, percebe-se que o autor focaliza, primeiramente, a apreensão do deputado diante das eleições que poderiam não acontecer e, na seqüência, mostra que o mesmo também articula um golpe. Dessa forma, o autor revela que as preocupações do deputado não eram relacionadas ao não acontecimento das eleições, mas sim ao fato de o golpe ser realizado pela oposição. Ao analisar-se o diálogo, pode-se partir do princípio de que a presença do banqueiro representaria a racionalidade, ou seja, Costa Vale consegue encadear os fatos históricos de uma maneira lógica, que comprova a derrota do partido do deputado. O banqueiro teria essa visão por não pertencer a nenhum partido, pois seu compromisso seria com os investimentos e o acúmulo de dinheiro, independentemente de quem fosse o governante.

Pode-se dizer, portanto, que o autor, ao citar aleatoriamente datas históricas, situa o leitor dentro de um tempo específico, sendo, no primeiro tomo, a época de 1930 a 1938. Dessa forma, o autor imagina e insere suas personagens nas principais datas históricas de antes do golpe. Esse procedimento torna as ações das personagens verossímeis aos acontecimentos futuros, bem como trazem a perspectiva dessas em relação às mudanças que aconteciam no país.

Essa estrutura narrativa que encadeia os fatos anteriores ao tempo presente é um recurso utilizado pelo escritor nos três tomos; assim, têm-se os diálogos e recordações das personagens que retomam o “antes do golpe de Vargas” no primeiro tomo. As coligações partidárias entre integralistas e armandistas aparecem no segundo tomo, antes da tentativa de tomada do poder pelos oposicionistas de Vargas. Finalmente, no terceiro tomo, vê-se as personagens se encaminhando para o julgamento de Prestes. Percebe-se, por meio dessa estrutura, que o autor não insere apenas o fato histórico na narrativa, existe o encadeamento de ações que seguem os fatos históricos. Pode-se dizer que esta seria uma das possíveis diferenças entre o discurso histórico e o literário: marcar uma intenção no recorte dos fatos históricos.

Nesse primeiro capítulo, percebe-se também a construção de três núcleos distintos de personagens: o núcleo dos capitalistas, representado pelos políticos armandistas e integralistas, pelos banqueiros, latifundiários e empresários; o núcleo dos comunistas, personagens que aceitam o ideário do Partido Comunista e militantes e, por fim, o núcleo das personagens que representam os a-partidários, que não possuem conscientização política, os imigrantes, os operários, os camponeses e os caboclos.

A partir dessa divisão da narrativa em três núcleos, que representam classes sociais e políticas, nota-se que os elementos históricos relacionam-se aos fatos políticos e sociais da época6.

No segundo capítulo do primeiro tomo, a narração retoma o fato histórico do golpe de Estado. Primeiramente, insere-se uma visão desse fato no âmbito internacional, especificamente no Uruguai: A notícia do golpe de Estado alcançou Apolinário [...]” (OSL, I, 121). Apolinário era um tenente que tinha participado da insurreição de 19357, cumpriu dois anos de prisão e, após ser posto em liberdade, recebeu a missão, dada pelo partido, de lutar na guerra civil espanhola8. Para viajar até a Espanha sem ser descoberto, Apolinário precisou ir para o Uruguai. Ao chegar ao país o tenente foi informado pelo uruguaio Pedro sobre os acontecimentos no Brasil. No fragmento que segue está o relato do uruguaio ao tenente:

- E's verdad, yo habia olvidado. Pues, yo le conto [sic]: don Vargas disolvió el Parlamento, anuló la Constitución, terminó con la campaña lectoral. El habló por la radio pero yo no sé lo que dijo, no estaba en casa. Ese don Getulio es un diablo, no hay persona que pueda con él... (OSL, I, 123)


A narrativa prossegue apresentando aos poucos como cada núcleo reagiu diante do golpe, tentando construir, dessa forma, não somente o fato histórico, mas várias perspectivas sobre um mesmo momento; entretanto, esses diferentes olhares passam pela visão do autor.

As diferentes ações e reações das personagens diante do fato histórico podem ser observadas nos fragmentos abaixo, sendo que, no núcleo capitalista há uma descrição sobre o dia anterior:

No dia nove à noite, Costa Vale, de volta a São Paulo, conversara com Marieta. Perguntara-lhe quais seus compromissos para o dia seguinte. Ela enumerou uns quantos: o cabeleireiro, a costureira, um chá com Paulo [...]

- Cancele tudo, minha cara. O melhor é não sair de casa amanhã. Pode haver desordens pela cidade. Amanhã Getúlio dará o golpe de Estado. (OSL, I, 131)


Em vista disso, o narrador mostra a atitude de Costa Vale diante do golpe e em seguida mostra a reação do gerente que trabalha no banco. Há nesse fragmento a colocação de duas atitudes diferentes diante de um mesmo fato, não deixando de observar que se trata da perspectiva de um proprietário e de um empregado:

No dia do golpe, Costa Vale saiu como de hábito para o seu escritório no banco, à mesma hora de sempre. E estava fechado em seu gabinete, numa importante conferência com a Comendadora da Torre, quando alguém bateu nervosamente na porta. Levantou-se para abrir, a Comendadora estudava, com uns olhos extremamente interessados, um mapa traçado por mão competente, cheio de riscos, de pontos, de sinais.

Na porta aberta apareceu a assustada figura do gerente, dizendo numa voz balbuciada:

- Os rádios estão anunciando um golpe de Estado. O Exército está na rua, patrulhando a cidade. Falam que o governador foi preso...

A Comendadora voltou-se num interesse excitado:

- Golpe de Estado? De quem? Fala, homem, diz o que sabe.

Mas Costa Vale atalhou a onda de notícias e boatos que o gerente se preparava para revelar:

- Não tem importância, Comendadora. Quem não sabia há muito tempo que Getúlio não ia permitir as eleições? (OSL, I, 132, grifo nosso)


No núcleo dos comunistas, a agitação e a organização entre eles são apresentadas pela personagem Mariana:

Nesse dez de novembro de 1937, Mariana voltou a pichar as ruas. [...]

[...] Tinha sido um agitado dia, os jornais lidos às pressas nas viagens de bonde, um ódio fechando a garganta, a visão desagradável dos desfiles integralistas pela cidade, dos soldados em patrulha, dos carros da polícia passando velozmente. [...]” (OSL, I, 163-164)


O narrador mostra constantemente os três núcleos vivendo o mesmo momento histórico, mas em posições sociais e políticas diferentes, portanto tendo visões e reações distintas em relação aos acontecimentos. Dessa forma, o autor constrói o fato histórico pelo discurso literário, sendo que essas diferentes perspectivas podem revelar que nenhum discurso apresenta uma verdade factual, mas apenas um ponto de vista em relação ao fato ocorrido, como nessa explicitação da professora Ana Lúcia Trevisan Pelegrino em sua tese de doutorado O espelho fragmentado de Terra Nostra: Literatura e História na narrativa de Carlos Fuentes (2004), que mostra como a realidade depende da perspectiva de quem a percebe e da maneira que a constrói discursivamente:

(...) Temos uma mesma história interpretada dezenas de vezes. É uma realidade vista, vivida e apresentada de forma plural. A afirmação de que a realidade não é linear pode justificar-se quando percebemos a realidade de forma fragmentada, ou seja, através das possibilidades de percepção dos diferentes sujeitos e seus discursos correspondentes, elaborados distintamente e traduzindo realidades paralelas. O real seria, para cada um, algo distinto do que para é o outro; não apenas como interpretação mas também como experiência concreta em si mesma. (p.86-87)


Nota-se, portanto, que o autor busca em sua narrativa mostrar diversos olhares sobre um mesmo fato histórico, porém, como se verá no capítulo sobre o engajamento na obra, essa construção da história afirma o envolvimento do autor com o Partido Comunista Brasileiro; no entanto, percebe-se que o escritor cria a partir da imaginação elementos ficcionais que remetem de forma verossimilhante aos fatos históricos, tornando, assim, a narrativa coerente dentro do discurso literário.

Nessa construção da história por meio das perspectivas das personagens, o autor imagina como eram realizadas as negociações entre os capitalistas e os investidores internacionais, sendo esse momento representado pelo banqueiro Costa Vale. No fragmento abaixo, o banqueiro pensa sobre as vantagens da ditadura e, no final, indaga sobre a utilização dos recursos para a destruição da União Soviética, apresentando, dessa forma, as divergências existentes entre os ideais capitalistas e os comunistas:

E o dez de novembro tinha chegado, os soldados estavam na rua, a ditadura se estabelecera. Já não poderiam os jornais gritar, exigir rios de dinheiro por um silêncio cúmplice, já os deputados da oposição não teriam tribunas de onde fazer escândalo, tudo era melhor e Costa Vale, da sacada do último andar do edifício do seu banco olhava com simpatia os soldados de baioneta nua sobre o fuzil, patrulhando as ruas comerciais. Conseguida a concessão, lançada a empresa, americanos e alemães teriam de vir a ele, fazer-lhe suas propostas, pagar o que ele pedisse pelo manganês encravado entre os rios, a floresta e a febre. E porque [sic] não os dois ao mesmo tempo, os americanos e os alemães, se certamente amanhã estariam juntos na guerra contra a URSS, e aquele manganês serviria para liquidar com os bolchevistas? (OSL, I, 145)

Verifica-se que essa seqüência histórica e literária exige do leitor um conhecimento de mundo sobre a história mundial da época, para que, assim, possa compreender os nomes e datas citados durante a narrativa. Existem momentos na narrativa que podem trazer várias dúvidas ao leitor, o qual terá que, constantemente, relacionar datas, nomes e lugares.

Após a inserção que o narrador faz do leitor no macrocosmo histórico, a narração torna-se menos datada, mas os acontecimentos prosseguem relatando momentos históricos posteriores ao golpe de Getúlio. Existe, no entanto, certa dificuldade em acompanhar as repercussões dos fatos imaginados com os “reais”. Aqui, deve-se ressaltar que conforme Umberto Eco (1994) disserta, a ficcionalidade remete a uma certa “verdade” incontestável, enquanto os fatos “reais” informados pelos noticiários e outras fontes podem ter sua “verdade” contestada, sendo assim, o leitor deveria ler o romance como uma “verdade” ficcional, mas ao encontrar os elementos extratextuais - o tempo histórico, as personagens históricas, os fatos históricos - a verdade ficcional passa a se enfrentar com a histórica, contestando, portanto, a mesma.

No terceiro capítulo, ainda do primeiro tomo, há uma mudança espacial e temporal: “Nos começos daquele ano de 1938, o sírio atravessara com seus burros, mais uma vez, as montanhas para atingir a civilização distante, levando o café, o milho e a farinha.” (OSL, I, 199). Aqui, percebe-se que o leitor subitamente é levado para outro ambiente que mostra diferenças culturais entre as personagens, mas que se subdivide, novamente, nos três núcleos anteriormente descritos: capitalista, representado pelos latifundiários; comunista, pelos militantes; e dos a-partidários, que são os camponeses e caboclos.

Atendo-se ao fragmento acima, percebe-se que a mudança de tempo ocorre, primeiramente, no vale do Rio Salgado. O narrador mostra uma distinção entre os habitantes do vale que representariam a barbárie e os demais, que são a civilização, mostrando, dessa forma, a distância não só de espaço, mas também cultural existente entre produtor e consumidor: “[...] atravessara [...] as montanhas para atingir a civilização distante [...]” (OSL, I, 199).

Neste trecho “[...] Foi só então que o revolucionário e os demais habitantes do vale souberam do golpe de Estado dado em dez de novembro de 1937, mais de três meses antes. [...]” (OSL, I, 200) observa-se como os moradores do Rio Salgado estavam alheios aos acontecimentos das outras regiões do país devido à falta de comunicação e à distância entre os Estados. Esse também é um fator histórico, pois, na época, não se possuíam elementos tecnológicos que facilitassem a comunicação entre os Estados.

Ao apresentar uma visão exterior dos acontecimentos, o narrador mostra cada personagem diante do mesmo fato como se possuísse uma câmera cinematográfica que focaliza cada ação em um mesmo momento. A partir dessa técnica, o leitor é levado aos diversos espaços, aos momentos históricos e aos imaginados, que seguem uma mesma linha temporal. Dessa forma, o panorama histórico aparenta ser construído por uma pluralidade de vozes.

Mesmo seguindo a linha temporal histórica, pode-se perceber que a ficcionalidade se diferencia da historicidade ao buscar uma ambientação dos fatos e das datas históricas, como é possível perceber no fragmento abaixo:

Uma chuva fina começara a cair sôbre a cidade após o meio-dia fazendo desaparecer certo ar de festa emprestado à manhã pelos soldados formados para a revista, na Avenida São João, pelas bandeiras nos mastros, pelos curiosos que tinham vindo espiar a cerimônia militar. A cidade estava tranqüila na hora da sesta, apenas alguns caminhões transportavam gente para o “stadium” onde devia realizar-se às 3 horas o anunciado comício, seguido de um jôgo de futebol. Como a entrada era grátis e o jôgo se disputava entre os clubes campeões do Rio e de São Paulo, bastante gente marchava em caminho do campo de esporte. Algumas pessoas, porém, começaram, por volta das duas horas, a destacar-se dos grupos que rumavam para o “stadium” e dirigiram-se para o Palácio dos Campos Elísios onde o ditador estava hospedado. (OSL, I, 282)


No fragmento acima há uma marca do tempo, do espaço e do evento que se realizava, sendo esses aspectos literários os elementos que buscam traçar um ambiente na imaginação do leitor. Essas descrições não são apresentadas na narrativa histórica, pois a história mostra o fato objetivamente; no entanto, o macrocosmo da descrição é a história, ou seja, o momento histórico em que Getúlio Vargas visitou São Paulo como ditador. Nota-se também, a partir da descrição, que cada pessoa caminha em uma direção, portanto podia perceber os acontecimentos em ângulos diferentes, ou seja, criava formas distintas de observar o mesmo momento. Neste romance, pode-se dizer que como essas personagens que vivenciavam o momento de diferentes formas, tem-se o escritor que narra os fatos históricos por meio de sua percepção, levando suas vivências e recordações do passado para dentro da narrativa, diferentemente do historiador, que recolhe documentos e pesquisa fazendo escolhas para narrar os fatos, dessa forma distanciando-se do momento narrado.

No segundo tomo, a estrutura narrativa segue a seguinte estruturação: momentos anteriores aos fatos históricos, fato histórico e sobreposição das diferentes visões das personagens em relação aos fatos. Essa estruturação esquematizada da narrativa revela um paradoxo dentro da obra. O escritor parece narrar a história a partir de uma pluralidade de vozes, por isso são apresentadas as diferentes visões de cada núcleo durante o momento histórico, no entanto, atendo-se à repetição da estrutura e das ações das personagens, que seguem a seguinte forma: o núcleo capitalista aparece manipulando o governo e a polícia, perseguindo o Partido Comunista e oprimindo os operários; o núcleo comunista combate esses, sofrendo privações econômicas e sendo torturados. Ao mesmo tempo, busca conscientizar o núcleo a-partidário de seus direitos. Dessa forma, percebe-se que as visões não se diferenciam, seguem um esquema de bons e maus, trazendo, portanto, uma univocidade da voz na narração, que apresenta uma forte inclinação ideológica, que demonstra o engajamento do autor. A narrativa, assim, mostra que Jorge Amado teve a intenção de narrar a História “pelo avesso”, mostrando os bastidores e contando a história não-oficial, mas ao mesmo tempo fez da narrativa um meio de difundir a mensagem comunista (DUARTE, 1996). Essa escolha do escritor, no entanto, transformou a pluralidade de vozes das personagens em uma única, a do partido.

Percebido esse aspecto da estruturação narrativa, nota-se que se repete esse esquema no segundo tomo, como no fragmento do diálogo entre Alves Neto e Saquila, que comentam os planos sobre o golpe armando-integralista impetrado contra Getúlio em maio de 1938:

[...] Já lhe disse que o que desejamos é um golpe inesperado e decisivo. E rápido, antes de tudo rápido. Uma luta longa, seu Saquila, a gente sabe como começa mas não como vai terminar. Lembre-se de 1932. Não vamos repetir aquela besteira. [...] (OSL, II, 233)


No trecho acima, aparece, mais uma vez, a referência à Revolução Constitucionalista de 1932, bem como a construção imaginária de um diálogo que mostra os planos para a realização de um golpe entre integralistas, armandistas e o dissidente do Partido Comunista, Saquila. O autor, portanto, segue o esquema narrativo anteriormente citado: um “antes” que será o elo entre a data histórica e a criação ficcional.

Um dado importante na narração desse momento histórico é a imaginação de uma suposta aliança entre os grupos de oposição política armandista e integralista para a realização do golpe contra Getúlio. O autor, dessa forma, faz o leitor repensar o que realmente ocorreu na época, e, logicamente, sobre o que se escreveu do momento histórico, afinal os planos políticos arquitetados por grupos podem não ser apresentados no âmbito da narrativa histórica, que se atém aos documentos que comprovam os fatos.

O momento da tentativa do golpe armando-integralista também envolve os três núcleos das personagens. No fragmento abaixo, tem-se a narração do momento em que o comunista João recebe a notícia:

[...] Tomara o trem há dois dias em Campo Grande, [...] Olhou em tôrno e viu os passageiros disputando, na plataforma da estação, os jornais de São Paulo, daquela manhã. Através a [sic] janela, leu um titulo: “TENTATIVA DE GOLPE INTEGRALISTA” [...]

[...] Comprara as edições extraordinárias dos jornais, ficara sabendo que os integralistas, aliados a elementos “armandistas” haviam tentado, na noite passada, um “pustch” contra o governo. Tinham atacado, de surpresa, o palácio Guanabara, residência do presidente da República, e não haviam matado Vargas por pouco. O ditador, com o auxílio de seus guarda-costas conseguira resistir, até a chegada de reforços. Lutas tinham-se travado em várias partes, especialmente no Arsenal de [sic] Marinha, onde os inferiores do Batalhão Naval fizeram abortar a tentativa de levante entre os oficiais integralistas. O golpe fracassara, havia muita gente presa, dirigentes integralistas e certos políticos ligados a Armando Sales. [...] O paradeiro de Plínio Salgado parecia, segundo outro jornal, ser desconhecido das autoridades que buscavam o chefe da Ação Integralista, para saber até onde ele se encontrava envolvido no “complot” [...] (OSL, II, 285-286)


Nesse trecho, percebe-se que a narrativa se atém aos fatos, isto é, ao que aconteceu no momento da tentativa do golpe. Nota-se que a narração se fixa no fato histórico acrescentando a aliança dos grupos armandistas e integralistas. No trecho abaixo, do historiador Skidmore (2003), verifica-se como o mesmo fato é narrado:

[...] Em resposta um grupo de integralistas armados tentou seu próprio golpe em março de 1938, atacando o palácio presidencial onde Getúlio dormia. No meio da noite, os integralistas armados (ajudados por guardas palacianos desleais) penetraram nos jardins do palácio e começaram a atirar no prédio principal. O que se seguiu foi mais uma comédia do que um combate. Getúlio e sua filha Alzira, então com 23 anos de idade, apareceram na janela e responderam ao ataque. Os integralistas hesitaram e organizaram um cerco. Demorou até o amanhecer para chegarem reforços governamentais, com Alzira telefonando freneticamente para os comandantes militares. Os atacantes sobreviventes (pelo menos quatro foram mortos) foram rendidos e levados à prisão. Getúlio tinha agora a desculpa perfeita para reprimir os integralistas, além dos comunistas. Plínio Salgado procurou asilo em Portugal e o Brasil ficou sem nenhuma alternativa organizada à nova ditadura.” (p.162)


Ainda sobre o mesmo fato, verifica-se no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – CPDOC da Fundação Getúlio Vargas:

[...] Após a fracassada tentativa de golpe, cerca de 1.500 integralistas foram presos só no Rio de Janeiro. Entretanto, a repressão não foi tão drástica como seria de se esperar. Enquanto a polícia perseguia a arraia-miúda, desenrolava-se uma farsa em relação aos chefes, notadamente Plínio Salgado, dado como "desaparecido", mas, na realidade, morando em endereço conhecido das autoridades, em São Paulo, desde março. [...]


Observando as semelhanças entre os discursos literário e histórico, nota-se que ambas narrativas apresentam um mesmo fato histórico: o golpe integralista contra Getúlio. A diferença, portanto, encontra-se na inserção de Jorge Amado, que mostra a união dos partidos de Armando Sales e Plínio Salgado; afinal, ambos sofreram interdições políticas após o golpe de Getúlio em 1937. Mesmo ao acrescentar essa união entre partidos de oposição, a narrativa literária não perde sua coerência interna, tão pouco se torna inverossímil, pois, com a saída de Getúlio do poder, os dois partidos se beneficiariam.

A partir dos dois trechos do discurso histórico, é possível perceber que a narrativa histórica possui uma ordenação dos fatos que resulta de determinadas escolhas, sendo, portanto, necessária uma perspectiva do historiador. Essas escolhas mostram que a realidade histórica, quando reconstruída, depende do ponto de vista de quem narra, como já foi dito anteriormente.

A tentativa de criar os bastidores da História por meio do “antes” dos fatos e dos diálogos das personagens segue uma linha imaginária e outra factual, que tornam a narrativa verossímil aos acontecimentos. Essa estruturação também mostra a diferença do discurso histórico, que possui uma narrativa mais pontual e nem sempre há intenção de mostrar os momentos históricos anteriores9, já o discurso literário possui uma narrativa mais imaginativa e pode acrescentar elementos aos fatos históricos, desde que não perca sua coerência interna. Pode-se dizer que a narrativa ficcional apresenta ao leitor uma nova forma de perceber as datas históricas apresentadas no romance.

Ainda mostrando as distintas perspectivas sobre o golpe contra Getúlio, o fragmento a seguir mostra Lucas Puccini comentando sobre os acontecimentos da tentativa de golpe com sua irmã Manuela. Percebe-se que o narrador suprime o diálogo da personagem no instante em que ele vai repetir um comentário de Vargas

[...] - Ia me esquecendo... Foi na hora pior, quando parecia que eles dominariam a situação. O presidente disse...

Imitava o acento gaúcho da voz de Vargas, concluía cada período com a afirmação:

- O presidente é um macho, Manuela. Nunca vi tanto sangue frio... (OSL, II, 289)


Getúlio Vargas é várias vezes citado durante a narrativa, mas o único momento em que apareceria sua voz, por meio de um interlocutor, seria nesse fragmento que mostra a migração da “pessoa” do ditador para dentro do discurso literário, evocando um efeito de realidade na narrativa. Ao suprimir a voz de Lucas Puccini, neste momento interlocutor de Vargas, o narrador impõe uma curiosidade no leitor e deixa aberta várias probabilidades do que foi dito. Percebe-se, ainda, que o narrador interpela o interlocutor para descrever “o acento gaúcho da voz de Vargas”, dando novamente um aspecto de “realidade” à narrativa.

No terceiro tomo, a narração detalha as torturas que os comunistas sofriam na prisão e o desmantelamento do Partido Comunista com várias prisões. Nesse volume é analisado o fragmento mais relevante relacionado à História: o julgamento de Luis Carlos Prestes.

No romance, o julgamento dos comunistas é realizado sem a presença do réu e da população. Dessa forma, todos só conheciam as sentenças por meio dos jornais; no entanto, quando o banqueiro Costa Vale percebe que o partido não foi completamente destruído mesmo com as diversas prisões que havia ocorrido, este decide denegrir a imagem de Luis Carlos Prestes. Começa, então, uma série de acusações que envolvem diretamente o revolucionário. A partir dessa campanha para a desmoralização de Prestes, Costa Vale consegue mudar as formas do julgamento, tornando-o aberto ao público.

A narração do dia do julgamento, no romance, mostra que o juiz relata as acusações contra o réu e depois concede um momento para que Prestes se defenda, como se verifica no fragmento abaixo:

Eu quero aproveitar a ocasião que me oferecem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo - terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou um povo da tirania...

O juiz grita quase histérico, retirando-lhe a palavra. Os soldados da Polícia Especial, os investigadores, atiram-se sobre ele, tentam arrastá-lo da sala. Mariana enxerga a massa de policiais conduzindo o prisioneiro a força. Uma certa balbúrdia estabelece-se, os espectadores empurram-se para ver melhor [...] Mariana, agora, está quase ao lado da mesa dos juízes, próxima a Venâncio e Artur. E ouve murmurar ao seu lado:

- Perdemos a partida...

[...]Venâncio Florival, [...] numa voz de ódio irreprimível:

- Para esse, só mesmo bala!

[...]Mariana não resiste mais e grita:

- Viva Luís Carlos Prestes! (OSL, III, 396, grifo nosso)


Nesse trecho, o escritor coloca as personagens dos três núcleos dentro de um único ambiente: o tribunal. O ex-deputado Artur, representando os políticos, e Venâncio Florival, representando os latifundiários, lutam contra o crescimento do Partido Comunista. Um dado importante é necessário citar: essas personagens representam também o banqueiro Costa Vale, pois seguindo as ordens deste é que Artur e Florival foram assistir ao julgamento.

Mariana é uma militante do Partido Comunista que foi assistir ao julgamento para conhecer seu líder e apoiá-lo, mesmo à distância; portanto, Prestes e Mariana são representantes do núcleo comunista.

Os espectadores representariam o povo que assistia aos embates entre o capitalismo e o comunismo e não possuía uma posição diante dos acontecimentos. Essa atitude perdura até o momento em que Mariana grita e é presa, como será analisado no capítulo do engajamento do autor.

Como se pode notar, o autor, novamente, utiliza-se do fato “real”, porém com várias perspectivas. No fragmento abaixo percebe-se como o historiador Diorge Konrad em um artigo feito a revista Princípios relata os acontecimentos

Em novembro de 1940, Luiz Carlos Prestes comparecia ao TSN para ser submetido a novo julgamento e aproveitava o momento para fazer a defesa do aniversário da Revolução Russa. Os juízes, com medo da repercussão, cassaram-lhe a palavra.

A partir desse trecho, verifica-se como as escolhas e perspectivas diante de um fato mudam a forma de narrar; ou seja, o discurso histórico, algumas vezes, como já foi dito anteriormente, apresenta uma objetividade diante dos fatos, enquanto o discurso literário descreve minuciosamente, trazendo, assim, mais elementos à narração.
O romance, portanto, constrói a História de 1930 a 1940 por meio de uma perspectiva política e ideológica, que revela um panorama político e social da época, o que nem sempre é uma prioridade do discurso histórico.
Observando atentamente a não linearidade da “verdade”, percebe-se que em um mesmo fato existem várias 'verdades' ou, simplesmente, não há 'verdades' e sim perspectivas diferentes, que durante a narração em um discurso histórico ou literário podem revelar ou obscurecer alguns fatos.
História e Literatura, em Os subterrâneos da liberdade, atravessam os limites das convenções, explicitadas por Mignolo, revelando as semelhanças entre a ficção e a história, pois ambas necessitam das escolhas para narrarem os fatos. Essa junção não diminui ou empobrece esses dois discursos, ao contrário, colaboram para que o leitor possa obter várias 'versões' de um mesmo fato.

5. AS PERSONAGENS FICCIONAIS: UM PROCESSO DE CRIAÇÃO A PARTIR DA MEMÓRIA


No romance em estudo se estabelece a criação de três núcleos distintos de personagens. Para análise neste capítulo são destacadas duas personagens do núcleo capitalista e duas do núcleo comunista, sendo que o núcleo das personagens a-partidárias será analisado no capítulo que trata do engajamento político do autor. Dessa forma, no núcleo capitalista será observado o banqueiro Costa Vale e Artur Carneiro Macedo da Rocha, enquanto que no comunista dar-se-á ênfase às personagens de João e José Gonçalo.

De acordo com Anatol Rosenfeld, em seu ensaio Literatura e personagem (2000), “a personagem torna mais evidente a ficção, pois a partir dela que a imaginação se adensa e cristaliza." (p.21). Partindo dessa afirmação, percebe-se que no romance essa cristalização é feita de uma forma tipificada. Jorge Amado, ao criar as personagens, busca ressaltar aspectos que as dividem de acordo com sua classe social e seu posicionamento político e econômico. O escritor, dessa forma, torna as personagens que representam o capitalismo em ambiciosos vilões, enquanto os comunistas são descritos como homens de coragem reprimidos por um sistema opressor, o capitalismo.

O núcleo capitalista é composto de poetas, políticos, latifundiários e várias socialites, mas esse trabalho se fixou em Artur e Costa Vale porque, além de representarem o capitalismo, essas personagens mostram a transposição econômica e de poder que se iniciou na década de 30.

Artur Carneiro Macedo da Rocha é descrito como um descendente da velha estirpe paulista. Na campanha para a eleição, apoiou Armando Sales e sonhou com o Ministério da Justiça. Com o golpe de Getúlio, teve que retornar à advocacia, mas logo tomou posse como ministro no governo de Getúlio. Artur renunciou ao cargo após a declaração de uma possível aliança de Getúlio com Hitler.

Artur, apesar de sua posição social, é um homem fraco ainda que ambicioso, que tem como principal recurso seu sobrenome, como se pode notar neste fragmento do diálogo de Artur com sua antiga paixão Marieta: "[...] teu único capital era o nome ilustre que herdaste, única coisa que não podias gastar nos cabarés...” (OSL, I, 34). Nesse fragmento, Marieta se refere ao casamento bem-sucedido que ambos tinham realizado, ela com o banqueiro Costa Vale e Artur, com uma mulher pertencente a uma família importante, a qual impulsionou a carreira política deste.

O caráter de Artur é mostrado pelos diálogos e pensamentos das demais personagens. No desenvolvimento da narrativa, o leitor percebe a fragilidade moral e a subserviência de Artur. O sobrenome deste também é constantemente recordado durante a narração, principalmente pelos “novos ricos”, ou seja, aqueles que não possuíam a descendência imperial de Artur. No trecho que segue, o narrador utiliza-se do discurso indireto livre para mostrar como o banqueiro percebe Artur:

[...] Tinha um certo respeito pela habilidade política do outro e uma certa inveja daquele seu ar aristocrático, daquela espécie de superioridade de casta que decorria de Artur naturalmente e que jamais Costa Vale – vindo de muito baixo, como ele mesmo gostava de repetir com vaidade – conseguiria adquirir apesar de seus milhões. Essa admiração e essa estima por Artur não iam sem um certo amigável desprêzo pela sua falta de energia, pela sua permanente indecisão, [...] considerava-se um pouco como o guia e conselheiro daquele político que era o “seu” deputado. (OSL, I, 36)


Esse suntuoso sobrenome de Artur é desejado não somente por Costa Vale, como nota-se no trecho acima, mas também pela Comendadora da Torre, uma recente empresária do ramo de tecidos. O título de Comendadora havia lhe custado "duzentos contos de réis" (OSL, I, 50), porém não lhe dava o sobrenome quatrocentista de que ela necessitava para ascender à posição social de sua família. Buscando associar seu dinheiro com o sobrenome vultuoso do paulista é que a Comendadora resolve casar sua sobrinha Rosinha com Paulo, filho de Artur. No fragmento que segue, percebe-se como o casamento é tratado como um negócio lucrativo para ambos e, também, a forma como o sobrenome de Artur , outrora sinal de poder e riqueza, passa a ser tratado como uma simples mercadoria:

- [...] quero falar do seu filho. Eu o vi uma vez em minha casa, gostei dêle... Eu lhe falo franco, gosto ainda mais dêsse nome sonoro que o senhor tem. Como é mesmo seu nome todo?

- Artur Carneiro Macedo da Rocha.

- Isso: Carneiro Macedo da Rocha... Um bom nome cheira a coisa antiga [...] (OSL, I, 49)


A princípio, Artur se sente ofendido com a forma com que a Comendadora se dirigiu a ele e com o convite de jantar incluindo um pedido de casamento, mas sua ambição parece ser maior que sua moral: “[...] sentia-se um pouco ofendido, mas ao mesmo tempo sua ambição, aquela tentação de dinheiro que dirigia sua vida, fôra aguçada pela perspectiva aberta da velha.” (OSL, I, 50). Nessa negociação do casamento verifica-se uma mudança nos valores sociais, o sobrenome continua a ter um valor dentro da sociedade, mas o poder e o dinheiro estão nas mãos dos espertos negociadores, melhor dos “novos ricos”. Aqui, percebe-se a coisificação dos valores burgueses, que passam a ser apenas objeto de compra na sociedade capitalista.

Essa fragmentação da estirpe paulista condiz com a descrição e as ações de Artur, que apresenta um aspecto fraco e indeciso. Até mesmo na política é possível perceber como Artur não possui uma posição definida, pois, mesmo sendo contrário à ditadura getulista, aceita o cargo de ministro, obedecendo, assim, a mais uma ordem de Costa Vale, que o manipula durante toda a narrativa. No trecho que segue, o banqueiro incita Artur a assumir o cargo de ministro no governo de Getúlio. Nota-se que durante o diálogo Costa Vale utiliza-se de argumentos para persuadir Artur, valorizando as influências e o status social do político, porém o maior beneficiado seria o próprio banqueiro:

- [...] Tu desejavas tanto ser Ministro da Justiça... Quem sabe a ocasião não chegou?

- Eu? Ministro de Getúlio? Estás brincando...

- [...] O Getúlio vai necessitar do apoio dos políticos paulistas que não se meteram no golpe. [...] És um advogado conhecido, um político de influência, paulista de quatrocentos anos. É do que Getúlio precisa.

- Mas não é só isso!

- E o que mais?

- Tu sabes... Afinal, tenho certos compromissos morais.

- Com quem? Com que partido se não existem mais partidos, com que candidatura se não existem nem candidaturas nem eleições, com que amigos se teu amigo sou eu?

[...] - Não deixa de ser um sacrifício ser Ministro de Getúlio nas minhas circunstâncias... O que vão dizer de mim, meu Deus! Mas, enfim, como tu dizes, se necessitam de mim para conciliar as paixões... [...] (OSL, II, 302, grifo nosso)


No desenvolvimento da narrativa, constantemente o narrador delega voz às personagens por meio do discurso direto, dando, portanto, uma suposta autonomia a elas, que mostram perspectivas e interesses a partir dos diálogos. Com esse recurso, pode-se dizer que a personagem também obtém um aspecto mais “real”, como mostra ROSENFELD (2000): "Ademais, as personagens, ao falarem, revelam-se de um modo mais completo do que as pessoas reais, mesmo quando mentem ou procuram disfarçar sua opinião verdadeira [...]” (p.29). A personagem, ao adquirir uma voz dentro da ficção, apresenta um "eu" que, apesar de ficcional, produz uma enunciação, a qual terá que possuir uma coerência dentro da narrativa.

A partir dos diálogos também se nota que Costa Vale, ao contrário de Artur, é um homem decidido que manipula o governo e todos que estão ao seu redor. É alcunhado na alta sociedade por “patrão”, o que revela seu caráter opinativo dentro de vários setores da sociedade capitalista. Os empresários e políticos, inclusive Getúlio, são dominados pelo banqueiro. Costa Vale possui uma visão ampla para fechar negócios e está diretamente envolvido com os empreendimentos internacionais. No trecho que segue, percebe-se a trajetória do banqueiro, que, apesar de não possuir a nobre descendência de Artur, tem uma astúcia eficaz para o mundo capitalista:

[...] Começara sua vida pela mão dos ingleses (seu pai havia sido um pequeno funcionário de estrada de ferro, êle mesmo trabalhara como empregado num escritório da Paulista), com êles ganharam o primeiro dinheiro grande mas soube ver o declínio do capital britânico no Brasil e aliou-se aos americanos em várias emprêsas. Agora procurava adivinhar de quem seria o futuro: [...] lera os artigos e os estudos sobre o poderio germânico, [...] estava quase disposto a mais uma vez mudar de barco. (OSL, I, 144, grifo nosso)


Nessas duas personagens pode-se notar a transição de poder político e econômico entre a classe social aristocrata e a capitalista. A importância da descendência imperial de Artur não o impede de se tornar um fantoche nas mãos de Costa Vale. Pode-se notar, a partir dos trechos, que enquanto o paulista quatrocentista iniciava um processo de decadência, o banqueiro começava sua ascensão. Nesse momento, havia uma mudança política e econômica que antes era centralizada nas mãos de paulistas. A transição de poderes inicia-se a partir da Revolução de 30, sendo o político ditado pelo governo de Vargas e o econômico, pelos investidores internacionais e pelos banqueiros que investiam no crescimento de fábricas, retirando, portanto, a primazia do café como principal produto brasileiro.

A transição de capitais internacionais que investem no Brasil também é percebida pelo banqueiro, que se preocupa em se aliar com o país que lhe rendesse mais lucro, como observa-se nesse fragmento:

[...] Quando, antes de 30, se desligara dos inglêses para se tornar um homem dos americanos, muitos outros capitalistas haviam lastimado sua sorte. E agora ali estava êle, mais poderoso que qualquer outro. Não seria chegado o momento de apostar mais uma vez no futuro que êle enxergara em Berlim [...] Ao mesmo tempo sentia sob os seus pés a firme terra dos dólares norte-americanos [...] “Quem será amanhã o capataz dessa fazenda?” (OSL, I, 146-147)


Costa Vale opta pelos investimentos norte-americanos, os quais financiam a criação da empresa que iria explorar manganês no interior do Mato Grosso. O banqueiro torna-se uma espécie de “testa de ferro” dos americanos no Brasil. Segundo Duarte (1996), essas ações de Costa Vale, a posição servil diante dos americanos e sua postura de comerciante das riquezas naturais brasileiras mostram o engajamento político do autor, que, por meio da personagem, faz uma crítica “ao imperialismo ianque” e à burguesia nacional da época.

Em oposição a esse núcleo estão os comunistas. Descritos como homens pobres que lutam pelo ideal comunista, são capazes dos maiores sacrifícios para defenderem suas idéias. João, nome de militância de Aguinaldo Penha, mostra uma decisão em suas palavras e ações e, mesmo sendo descendente de operários, possui uma cultura ampla de lugares, livros e pinturas. Casa-se com Mariana, também militante do Partido, e tem um filho ao qual lhe dá o nome de Luis Carlos Prestes.10 No terceiro tomo, João é preso e torturado, depois é transferido para o Rio de Janeiro. Na detenção do Rio de Janeiro, o juiz ouve seu depoimento, João denuncia as torturas que eles e seus companheiros haviam sofrido na cadeia. Neste trecho percebe-se um trabalho de criação do autor a partir de uma personagem real, pois esta atitude diante do juiz foi realizada por Luis Carlos Prestes em seu julgamento, realizado em 1936. Nos trechos abaixo pode-se verificar a semelhança das ações realizadas pela personagem ficcional:

[...] João começou por protestar contra as violências e brutalidades de que haviam sido vítimas êle e os outros prêsos. [...]

O juiz resumiu-lhe a papelada da polícia. Estava cada vez mais nervoso ao comprovar que o prêso não havia tido nenhum conhecimento prévio do processo, não possuia advogado. João fazia-lhe ver cada uma dessas ilegalidades, protestava contra tôdas elas. Refutou as diversas acusações da polícia, as denúncias incríveis de Heitor Magalhães. Fez novamente sua profissão de fé comunista, assumiu a responsabilidade de seus atos como dirigente comunista [...] (OSL, III, 318-319-320)


A pessoa “real”, Luis Carlos Prestes também se defendeu das acusações feitas pela polícia e fez sua profissão de fé comunista:

Prestes foi agredido pela polícia à entrada do STM e protestou contra a agressão durante o julgamento. Fez também sua profissão de fé comunista e negou competência àquele tribunal para julgá-lo, referindo-se ainda aos maus-tratos sofridos na Polícia Especial. Quanto à prova documental contra ele apresentada, alegou ter sido a mesma urdida pela polícia. (CPDOC)


A partir desses dois fragmentos, nota-se que o autor deslocou um fato real para a ficção. Dessa forma, mesclou na personagem ficcional as ações realizadas por uma pessoa real. Essa relação entre o real e o imaginado é apresentada constantemente dentro do romance, tanto na escritura da história, como foi visto no capítulo anterior, como na criação e nas ações de algumas personagens. Apesar de existir apenas esse fato que vincula a personagem de João a Luis Carlos Prestes, pode-se dizer que existe um certo tipo de relação entre o sujeito histórico e o fictício, "que é manifestada através da atitude da personagem." (CANDIDO, 2000, p.55).

De acordo com Antonio Candido (2000), "Ao elaborar a personagem a partir de fragmentos imaginários e 'reais', o escritor traz uma personalidade nova" (p.73), isto é, cria uma personagem que, mesmo possuindo características de um ser “real” é outro ser. Utilizando-se da memória, o autor retira da memória circunstâncias vividas por pessoas reais trazendo-as para o universo ficcional,11 porém sem perder a coerência interna da personagem. João era um comunista e foi preso e torturado como Prestes, mas o único elo existente entre os dois é o fato isolado do julgamento. Segundo Carelli (1997), “as personagens tiradas da vida real, reúnem em si não apenas os traços físicos e morais das personalidades que os inspiram, mas também outros, que partem da visão profundamente ideológica de um mundo dividido em classes” (p.41). Devido a essa visão, as personagens comunistas e a-partidárias aparecem no romance como os oprimidos pelo capitalismo.

A personagem de Zé Gonçalo (o Gonçalão) também é um processo de criação do escritor a partir do “real” e da memória. Gonçalo é um militante do partido que ajuda na luta dos índios contra um fazendeiro que roubou-lhes a terra. Essa luta aconteceu em Paraguaçu. Devido a esse fato, Gonçalo foi condenado a vários anos de prisão e seguindo as ordens do partido, foi para o Mato Grosso, no vale do Rio Salgado. Nesse Vale, Gonçalão trava uma luta contra o imperialismo americano e o banqueiro Costa Vale, que desejava instaurar uma empresa para explorar manganês e tentava expulsar os caboclos que viviam nas terras.Segundo Sodré (1984, apud Fabiana Biutor Carelli, 1997, p.20), essa empresa trata-se "da Companhia da Vale do Rio Doce inaugurada em 1942, durante o Estado Novo"

Ao reconstruir-se a personagem a partir de uma pessoa real, é preciso perceber que a visão da realidade é fragmentada e limitada, como foi explicitado no capítulo anterior, no qual verificou-se 'a não linearidade das verdades'. Da mesma forma, ao perceber-se uma determinada pessoa, nunca ter-se-á uma definição completa da mesma, pois "a noção a respeito de um ser, elaborada por outro ser, é sempre incompleta, em relação à percepção física inicial." (CANDIDO, 2000, p.56). Ao perceber-se uma pessoa, inicia-se um processo de imaginação, isto é, a partir da percepção que se tem do ser, cria-se uma imagem, que pode ser ou não condizente com os aspectos “internos” da pessoa em questão.

Na personagem de Gonçalo, o autor elenca algumas características de seu amigo Martins, como mostra Fábio Lucas em seu ensaio A contribuição amadiana ao romance social brasileiro (1997):

[...] Jorge Amado informa que a personagem foi inspirada num amigo de compleição gigantesca chamado Martins, ou Martinzão, mestiço que comandou os índios do posto de Paraguaçu contra os invasores da terra, no interior da Bahia, durante os anos trinta. (p.116)


No trecho abaixo segue a descrição que o narrador apresenta de Gonçalão:

[...] um homem de talhe gigantesco, de braços como grossos ramos de árvore, de pesadas mãos calosas, de bronzeada côr de cobre [...] era de uma bondade sem tamanho, [...] alguns o designavam, nas conversas entre vizinhos distantes que se encontravam nas calçadas, pelo apelido de 'Amigão' [...] (OSL, I, 188-189)


Percebe-se, nos fragmentos acima, que a descrição da personagem se assemelha às características do amigo de Jorge Amado, sendo que, até o apelido de Gonçalão, “Amigão” refere-se à intimidade que o escritor tem com Martins. Outro dado importante é a luta com os índios em Paraguaçu, que também é descrita na narrativa ficcional. O autor realizou, portanto, uma imigração da pessoa real para a ficção, recriando os aspectos físicos e as ações que correspondem à realidade de um ser; no entanto, como já foi dito anteriormente, a partir do momento em que se transporta uma pessoa real para o universo ficcional, passa a existir uma nova personalidade. Isso fica claro na medida em que percebemos que essas personagens de ficção, ainda que apoiadas em um referencial explícito extratextual, submetem-se ao seu “papel” de ente de ficção, são essências para a articulação da trama. São, portanto, recortadas da realidade com uma intenção: cumprir uma função dentro da obra de ficção, nesse caso específico, corroborar com a propaganda ideológica de Jorge Amado.

A partir da indicação do autor, que informa como foi realizada a criação da personagem e da possível comparação entre os dados fornecidos pelo escritor e a narrativa, compreende-se que foi realizada essa transposição do real para o imaginário; entretanto, na criação da personagem de Gonçalão também ressalta-se outro dado relevante, pois a personagem é identificada, algumas vezes, por outros militantes como o próprio partido (CARELLI, 1997, p.45). Essa identificação é um processo de mitificação que ocorre na narrativa gradativamente e transforma, aos poucos, segundo Duarte (1998), o partido em uma personagem; isto é, ocorre uma antropomorfização da organização partidária em uma personagem que teria o poder de libertar os oprimidos, como vê-se nas canções dos cegos violeiros que, conforme o narrador, enxergam o comunismo como um "ser lendário” que entrega a terra aos trabalhadores:

Encontrei “seu” comunismo

viajando pela estrada.

Onde vai, “seu” comunismo,

Nesse seu passo apressado?

- Vou depressa terra dar

a quem terra não tem [...] (OSL, II, 49)


Dessa forma, o escritor transforma a organização política em um mito, despolitizando-a e dando-lhe um aspecto messiânico e redentor (DUARTE, 1998). Isso também ocorre com seus militantes, que têm a função de propagar os ideais comunistas; assim, ao analisar-se os dois núcleos, capitalista e comunista, nota-se a criação das personagens a partir de seus valores sociais, principalmente partidários. Os dois grupos, portanto, pertencem a pólos opostos, sendo que os capitalistas representam a ambição e a individualidade, enquanto os comunistas, a luta do coletivo. Nos trechos verifica-se que esses núcleos caminham em posições contrárias. Enquanto Costa Vale tenta retirar as terras dos caboclos para implantar uma empresa, tornando-se, assim, mais poderoso, Artur se preocupa com sua posição política e social; João luta pelo direito de se defender diante da justiça e Gonçalo, pelo direito à terra. Os ideais capitalistas e comunistas são as oposições da época.

Percebe-se que o escritor obedece a uma certa intencionalidade ao construir as personagens, que:

são construídas ao redor de uma única idéia ou qualidade e se definem em poucas palavras, não evoluem no transcorrer da narrativa porque suas ações apenas confirmam a idéia a elas atribuída. (BRAIT, 1993, p.40-41)


Dessa forma, o escritor cria personagens-tipos, que são construídas por meio de uma oposição entre o bem e o mal, e mitifica o Partido Comunista antropomorfizando-o em uma personagem. Os capitalistas, são formados a partir da idéias de ambição, de poder e de individualismo, enquanto que os comunistas são formados segundo as idéias de igualdade e justiça. Essa criação das personagens obedece toda a estrutura narrativa, que busca escrever a História do Brasil por meio dos aspectos negativos, da ditadura, e positivos, do comunismo.


5.1. AS PERSONAGENS E O PROCESSO DE MITIFICAÇÃO IDEOLÓGICA


Neste capítulo é examinada a estrutura da narrativa a partir dos núcleos das personagens, já citados anteriormente, porém retomados agora: capitalista, comunista e a-partidária. A abordagem enfatiza o aspecto ideológico e engajado do escritor, que criou uma narrativa com matizes ideológicas com a finalidade de expandir os ideais comunistas.

Como foi apresentado no capítulo anterior, o núcleo capitalista tem como principal representante o banqueiro Costa Vale, que, de acordo com a narrativa, é conhecido como “o patrão”. O escritor Eduardo de Assis Duarte, em sua obra Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1996), disserta da seguinte forma sobre a função dessa personagem na obra: “Este é construído de forma a expor em seus atos a preponderância do poder econômico sobre o poder político e a subserviência de nossa economia ao capital estrangeiro.” (p.212).

Em oposição ao núcleo capitalista estão os comunistas, que lutam contra o governo Vargas e sofrem as diversas perseguições do Estado Novo. A personagem mais representativa desse núcleo é José Gonçalo, que é visto, até mesmo pelo dirigente João, como a personificação do partido: “[...] Quando eu o olhava, tinha a impressão de estar vendo o Partido diante de mim: forte, calmo, bom, inteligente, resoluto.” (OSL, III, 256)

Gonçalo, como os demais representantes do partido, “simboliza o partido” (DUARTE; 1996, p.229) e possui a função messiânica de levar a verdade aos oprimidos pelo capitalismo. Duarte (1996) analisa as personagens comunistas da seguinte forma:

O militante configura-se como semeador da revolução nos confins do país, tarefa que se reveste do sentido de missão e confere as suas palavras e atitudes o caráter de profecias, já que mais tarde surgem os vilões para se apossarem dos tesouros ocultos no santuário verde. (p.229-230)


Essa função ‘messiânica’ é proveniente de todos os militantes do partido, como verificar-se-á no desenvolvimento deste capítulo.

Neste trabalho, o núcleo a-partidário abarca todas as personagens que não possuem uma conscientização política. Essas personagens possuem um aspecto importante porque sofrem um processo de transformação após conhecerem os ideais do Partido Comunista do Brasil, revelando, dessa forma, o caráter ideológico e engajado do romance.

Nesse núcleo são destacadas as personagens dos irmãos Lucas Puccini e Manuela. Eles são apresentados pelo narrador como uma família de imigrantes pobres. Lucas é vendedor de uma loja de tecidos e deseja ser rico. Manuela é jovem e ingênua, possui uma grande admiração pelo irmão e sonha um dia ser bailarina.

A vida dessas duas personagens começa a mudar quando, no final do mês de outubro de 1937, passeando por um parque de diversões com a família, Lucas reencontra Eusébio, um antigo amigo, e Manuela conhece Paulo, filho do então deputado Artur. Eusébio era representante do Ministério do Trabalho e convida Lucas para trabalhar com ele dentro dos sindicatos. Paulo trabalhava como diplomata e estava chegando de Bogotá após beber muito, o que ocasionou uma grande confusão e seu afastamento temporário do cargo.

A partir desse momento, a narrativa mostra acontecimentos que transformam a vida desses dois irmãos. Lucas, com a ajuda de Eusébio, consegue comprar empresas utilizando o dinheiro da caixa de pensões dos operários. A ascensão de Lucas ocorre em torno de quatro anos, precisamente o tempo em que se desenvolve a narrativa do romance. Nesse período, ele consegue ascender de vendedor a sócio de Costa Vale.

Manuela se envolve com Paulo, que a revela no balé. Apesar de ter vocação para a dança, ela não possuía conhecimentos técnicos, mas como Paulo tinha influências no meio artístico, conseguiu lançá-la como bailarina na festa que a Comendadora proporcionou a Getúlio. Acreditando nas promessas de casamento do playboy, Manuela se entrega a ele sem saber que, logo, Paulo se casaria com Rosinha, sobrinha da Comendadora.

Durante esses acontecimentos, as visitas entre os dois irmãos se tornam mais escassas; no entanto, Manuela ainda nutria pelo irmão uma certa devoção. Lucas percebe que a irmã havia se envolvido demais com Paulo, porém suas preocupações estão voltadas para os negócios. Lucas acredita que se conseguir muito dinheiro, poderá “adquirir” o marido que Manuela quiser. Aqui, percebe-se a tentativa do autor de mostrar a coisificação do amor dentro da sociedade capitalista.

Quando Manuela descobre as mentiras de Paulo e vê o anúncio de seu casamento na imprensa, apesar de todo seu sofrimento decide terminar o relacionamento; mas, ao descobrir que estava grávida, acredita que a única solução seria casar-se, por isso procura o jovem, que a trata com desprezo e pede para ela abortar a criança. Diante da difícil situação, Manuela decide criar seu filho sozinha e procura o irmão a fim de lhe dar a notícia. Ao término do relato de todo seu envolvimento com Paulo a Lucas, Manuela ouve o pedido do irmão:

- Acho que é melhor mesmo abortar.

- Tu, tambem? [sic]

Ele tomou-lhe das mãos, sua voz saía dificilmente, faltavam-lhe as palavras, não queria ferí-la mas tinha de convencê-la, custasse o que custasse.

- Que queres? Não podes ter essa criança. Que tenhas sido amante de Paulo, foi uma besteira, mas, enfim ... Um filho já é outra coisa ... Vai complicar tudo ...

[...]

- Deves fazê-lo por mim ... Estou começando a vida, Manuela, tenho um futuro enorme pela frente. Essa tua decisão pode vir a estragar tudo, liquidar tudo. Percebes?

E continuou a expor suas razões, a voz quase humilde, quase chorando a pedir:

- Estou em tuas mãos. Se és uma boa irmã... (OSL, II, 316 grifo nosso)


Percebe-se, nos trechos grifados do fragmento, como Lucas utiliza seu discurso para persuadir Manuela. O irmão tenta mostrar para a irmã como a decisão dela poderia interferir em seus negócios. Lucas domina a irmã e sabe da admiração que ela possui por ele; assim, Manuela aceita o pedido do irmão e no hospital conhece Mariana, uma militante do partido que estava se recuperando de uma cirurgia de apêndice. Nesse momento, começa a mudança de Manuela: “[...] Restabelecia-se aos poucos, voltara a viver, [...] (OSL, II, 325). Neste momento da narrativa, percebe-se a função messiânica da militante Mariana, que, no momento de maior sofrimento de Manuela, aparece para trazer a redenção, o alívio e o conforto.

Mariana apresenta o arquiteto Marcos, simpatizante do partido, para Manuela. Os dois se tornam, inicialmente, amigos e no final do romance descobrem que se amam e se casam. O escritor, nesse momento da narrativa, busca revelar os valores do Partido a partir das personagens de Mariana e Marcos, ou seja, mostra que o partido está próximo dos oprimidos e dos enganados pelos capitalistas. Percebe-se essa valorização a partir da transformação de Manuela após conhecer os comunistas e da voz do narrador, que aparece logo depois desse encontro:

Foi assim que Manuela conheceu os comunistas, num quarto de hospital, quando mais solitária se sentia, quando a vida lhe parecera um fardo insuportável, quando até da dança ela esquecera (OSL, II, 326).


Manuela, ao conhecer os militantes do partido, muda sua forma de agir, de pensar e de perceber o mundo. A visão estereotipada que ela possuía sobre os comunistas deixa de existir: “Não penso mais que os comunistas são umas feras...” (OSL, II, 330). Passa a vê-los como seus primeiros amigos: “Pela primeira vez, Manuela sentia o calor uma verdadeira amizade.” (OSL, II, 330). Essa transformação da personagem afeta diretamente seu irmão, que passa a não reconhecer as atitudes da irmã, como se verifica no trecho que segue:

Uma estranha Manuela se revelava a Lucas, cheia de vontade própria, fazendo e desfazendo sem lhe perguntar opinião, recusando categoricamente sua ajuda financeira, recusando seus conselhos [...]

Ela ria, não respondia, não dava importância às suas palavras. E aquilo feria Lucas [...] como se a admiração incondicional de Manuela lhe fôsse necessária para o prosseguimento feliz dos negócios (OSL, II, 331-332).


Nota-se a partir dessas personagens que o autor criou uma oposição entre as escolhas e os caráteres dos irmãos, a qual proporcionou o efeito de que Lucas é ambicioso e individualista a ponto de pedir que a irmã faça um aborto para que, assim, um sobrinho "bastardo” não prejudicasse sua carreira e sua aceitação na sociedade capitalista, enquanto que Manuela, ao contrário do irmão, possui a inocência, a pureza que é enganada e desiludida pelos representantes do capitalismo, que são, neste momento, Paulo e o próprio Lucas.

Ao se analisar a construção dessas personagens, percebem-se as matizes ideológicas do autor ao criar três núcleos distintos. Manuela, enquanto buscava na sociedade capitalista seus sonhos, foi enganada e passou por diversas humilhações. O irmão Lucas, como buscava apenas o dinheiro, conseguiu rapidamente adaptar-se ao caráter capitalista que prioriza, conforme a narrativa, a ambição e a individualidade. Mesmo possuindo os aspectos dos capitalistas, Lucas sofre discriminações ao tentar se tornar um deles: “[...] Henriqueta Alves lançou-lhe um olhar de desprêzo: - Bem se vê que o senhor não está habituado às nossas rodas [...] (OSL, III, 329) porém sua frieza de homem de negócios o impede de se preocupar com as indiferenças dos “antigos ricos”. O único desejo de Lucas era o de se tornar tão importante quanto o banqueiro: “Costa Vale simbolizava tudo quanto êle desejava ser e possuir [...]” (OSL, III, 297).

Dessa forma, é possível perceber que existe uma função maniqueísta na obra, que valoriza os aspectos comunistas, denegrindo os capitalistas. O ideológico se verifica na tentativa do escritor de mostrar que “o melhor caminho a seguir” seria a adoção dos ideais comunistas, nos quais seria possível encontrar a “verdade”, a “justiça” e a “solidariedade”. Segundo Duarte (1996), formam-se dois grupos: “os opressores e os oprimidos [...] o mundo surge dividido entre Hitler e Stalin, entre os comunistas e os outros.” (p.225).

O conhecimento das ideologias do partido não muda somente a vida de Manuela, mas também a de Nestor, camponês que trabalhava nas terras de Venâncio Florival e que não sabia sequer ler. A transformação do camponês ocorre após seu “encontro” com os ideais partidários.

Antes de conhecer o partido, Nestor aceitava os ensinamentos do avô, que havia nascido nas terras de Venâncio Florival, um grande latifundiário do Mato Grosso. O velho avô acreditava que não precisavam saber ler e escrever, pois “a êles cumpria nascer e morrer, após terem se curvado sôbre a terra, de sol a sol, para ganhar o que comer e uns trapos para se vestir [...]” (OSL, II, 52); mas, Nestor conhece Gonçalo e aprende que “cada um pode construir o seu próprio destino, cada um pode modificar sua vida. A sua e a de todos em redor: dependia dêles mesmos [...]” (OSL, II, 53).

Pode-se notar a recorrência da ajuda do Partido, representada nessa feita por Gonçalo. Dessa forma, os ideais partidários são levados pelos militantes missionários, que levam aos desfavorecidos pelo capitalismo a esperança e a transformação do homem. Nestor passa a ter consciência de que é livre e pode mudar seu destino, ao contrário do avô, que durante toda a vida acreditou que “O destino é Deus quem dá” (OSL, II, 53).

Ainda no âmbito da criação distinta dos núcleos, percebe-se como o narrador, de forma significativa, deixa sua marca ideológica na narrativa quando apresenta as diferentes visões sobre o amor que possuem Marieta, esposa de Costa Vale e pretensa amante de Paulo; Mariana, casada com João, dirigente do Partido; e Manuela, quando ainda amava Paulo; ou seja, os diferentes significados da palavra amor apresentados por cada núcleo; mas o amor de Mariana se destaca:

infinitamente mais complexo que o de Manuela, infinitamente mais profundo que o de Marieta. Sua grandeza está muito além dos limites do leito sonhado por Marieta, do casamento pelo qual anseia Manuela, seu amor abarca as fronteiras de todos os sentimentos, é a vida em tôda a sua plenitude, e para ela significa ardente alegria, segurança, confiança, seu amor a ilumina e dá-lhe fôrça. Não lhe traz êsse amor, nem por um instante sequer, nenhum sofrimento, não lhe causa nenhuma dor, não a faz ter mêdo, nem chorar, nem desesperar-se, não a faz menor como Marieta, nem envergonhada como Manuela [...] (OSL, I, 280)


Manuela, ao apaixonar-se, por Marcos já conhecia o partido e o amor passa a ter um novo significado, mesmo sem saber se esse seria correspondido: “[...] Não a louca paixão de adolescente sentida por Paulo, feita de ilusões e enganos. Era um amor nascido do sofrimento, doce como bálsamo [...] (OSL, III, 160).

Marcos, após ser preso, decide tornar-se militante do partido. Essa atitude também lhe garante uma transformação e um alívio interior:

[...] Naqueles dias Marcos analisou e concluiu que, se desejava ser honesto consigo mesmo, devia dar o grande passo, pedir sua inscrição no quadro do Partido. Na noite em que decidiu fazê-lo, sentiu-se invadido por uma profunda emoção. E pensou nos seus amigos: em Mariana, em João [...] Ia ter direito de dizer-lhes 'camarada', de marchar ao lado dêsses, homens e mulheres cuja vida e dignidade êle conhecia.” (OSL, III, 336, grifo nosso)

Nos fragmentos acima, percebe-se como a partir do conhecimento e da integração das personagens ao Partido dá-se uma modificação das mesmas, passam a possuir uma conscientização diante da vida que antes não possuíam. Dessa forma, o estado de ingenuidade e submissão se transforma em um de conhecimento e militância; assim, pode-se dizer que a função messiânica é cumprida pelos militantes, que levam a redenção e disseminam as idéias partidárias que transformam e libertam o homem.

Além dos aspectos ideológicos, o escritor apresenta um engajamento partidário dentro da obra pela presença de vocabulários marcados12, de personagens comunistas e de espaços por eles ocupados (ROCHE, 1995, 35).

Jean Roche, em seu livro Jorge bem/mal amado, apresenta que o número de personagens comunistas é inferior ao vocabulário marcado. Esse fato revela que no romance os comunistas “são mais descritos, representam mais, isto é, falam, agem, lutam e são combatidos.” (ROCHE, 1995, p.30); portanto, possuem uma dinamicidade mais marcada, ou seja, atuam, mostram o trabalho do partido dentro do Brasil.

Esse engajamento do escritor Jorge Amado ocorre devido à “crença” na ideologia professada pelo Partido Comunista, ao qual ele era filiado. A tentativa do escritor em sua obra é justamente a de mostrar que a filiação ao Partido seria o caminho para a adoção do comunismo no país; assim, terminariam as desigualdades sociais e começaria um novo tempo, como nas palavras do jovem português Ramiro a sua namorada “[...] um comunista é o construtor de um mundo de paz, de justiça e de alegria [...]” (OSL, III, 41) ou nas palavras do Sargento Franta Tyburec a Apolinário

[...] nós venceremos porque o que possuímos não é um fuzil: é uma idéia. E não há, amigo, nem fuzil, nem metralhadora, nem canhão que possa destruir uma idéia. Eu sei que jamais poderão destruir a União Soviética, porque ela é edificada sôbre a idéia da felicidade do homem [...] (OSL, III, 193)


Dessa forma, Jorge Amado tenta transformar o Partido no caminho para a mudança da sociedade brasileira. Percebe-se, ainda, que no último tomo o autor tenta deixar uma mensagem de esperança, mesmo com a maioria dos dirigentes do partido sendo presos. No julgamento de Prestes, agrupam-se no tribunal os três núcleos: Artur e Venâncio Florival representando o capitalismo, Mariana e Prestes, o comunismo, e os espectadores representavam a massa, talvez possa se dizer, a classe operária que participava no Tribunal. Esses são os outros elementos de apoio aos comunistas, pois, no final do romance, quando Mariana é presa por ter gritado para Prestes, a narração mostra uma solidariedade dos espectadores, como aparece neste fragmento, em que Mariana é levada para o carro de polícia:

Lá fora era a manhã de beleza deslumbrante. Um investigador empurrou Mariana em direção ao carro de transporte de presos, ela tropeçou, ia caindo, alguém a sustentou. Ao levantar-se, ela pôde sentir, nos olhos de todos aquêles que se haviam agrupado na porta e na rua, a mesma cálida solidariedade do homem do povo que a amparava e lhe apertava a mão. (OSL, III, 396, grifo nosso).


No início do trecho acima, percebe-se a adjetivação da manhã “beleza deslumbrante” que pode ser interpretada como o nascimento de um novo dia ou o início de algo muito importante. Ao deter-se no desenvolvimento da narrativa, nota-se a população com um olhar de colaboração e até mesmo de cumplicidade com a comunista. Existe, também, a descrição do homem que ajudou Mariana a se levantar, “homem do povo”. Nesse momento, a narrativa apresenta uma mensagem, isto é, a união, a solidariedade e a conscientização do povo começavam a existir, e isso traria novos dias.

Mesmo narrando a 'destruição' do Partido a partir das prisões e da condenação de Prestes, Jorge Amado deixa uma mensagem de esperança: tudo podia mudar. O comunismo seria a Luz no túnel13, subtítulo desse último tomo.

6. FICÇÃO E HISTÓRIA: UMA VISÃO REFLEXIVA


Percebe-se a partir do estudo realizado da obra Os subterrâneos da liberdade (1954) que o autor Jorge Amado narra a História da época da ditadura Vargas buscando revelar a história oculta dos vencidos, do Partido Comunista. O nome da obra já é um índice dessa história escondida, velada, que o autor busca mostrar.

A narrativa é formada, portanto, pelo acréscimo de ações e personagens dentro do contexto histórico, que revelam uma opressão do ditador Vargas em relação aos oposicionistas, principalmente ao Partido Comunista Brasileiro, que permanecia na ilegalidade.

Além de atacar veementemente o governo ditatorial de Getúlio, o escritor critica o “imperialismo ianque”, que são os investidores americanos, os quais se associavam aos capitalistas e exploravam as riquezas minerais do Brasil.

Jorge Amado mostra como os momentos históricos anteriores ao golpe - a Revolução de 30, o Movimento de 32 e a Insurreição de 35 - foram fatos importantes que desencadearam o governo ditatorial.

Os discursos histórico e literário sofrem uma fusão dentro da obra, mostrando que a “verdade” histórica pode ser contestada, enquanto a narrativa ficcional, se possuir uma verossimilhança interna, é incontestável dentro do seu aspecto ficcional, por isso a escolha do autor em escrever um romance e não um livro de memórias ou autobiográfico. Apesar de ter vivido os momentos repressores da ditadura e, conseqüentemente tê-los levado para o romance, o autor busca acrescentar à História fatos que, porventura, foram abandonados pela história [não confessa] devido à censura.

A partir da análise das personagens, verificou-se que o autor utilizou-se da memória, retomando, assim, em suas personagens, aspectos físicos e ações de pessoas “reais”. Esse recurso faz entidades nativas e imigrantes “conviverem” em um mesmo espaço ficcional, conferindo ao romance um aspecto de “realidade”.

Na construção das personagens também verificou-se a ideologia partidária e o engajamento do autor. Ao esquematizá-la em boas e más, Jorge Amado mostra o maniqueísmo e o sectarismo partidário que envolve toda a narrativa.

A estrutura narrativa, inicialmente, parece trazer uma pluralidade de vozes para os fatos históricos. Existe uma proliferação de personagens no romance que desencadeia uma reação de cada núcleo diante do fato histórico; no entanto, ao analisar-se essas vozes, percebe-se que todas representam a idéia do autor. Dessa forma, os capitalistas são os opressores do Partido Comunista e do proletariado, enquanto os comunistas tornam-se mensageiros das idéias partidárias, sendo, ao longo da narrativa, o próprio partido transformado em um ser mítico que leva a redenção e a justiça ao homem.

Devido a essa estruturação, a narrativa torna-se unívoca, apresentando somente a voz do autor que busca difundir a ideologia comunista por meio da literatura. No entanto, mesmo com esse aspecto engajado, que transparece também por meio da linguagem utilizada, percebe-se que a narrativa traz elementos importantes para a compreensão histórica da época.

Em suma, Jorge Amado escreve a História de 1937 a 1940, mostrando a ilegalidade do Partido Comunista, os fatos históricos políticos, econômicos e sociais que ocorriam no Brasil e em outros países. O romance reproduz os ideais partidários do autor, mas também revela um país com diversos problemas sociais, tais como as diferenças de classe, a necessidade de uma reforma agrária e a exploração das riquezas brasileiras por empresas estrangeiras, problemas estes que ainda não foram solucionados. Jorge Amado, na época, compreendia que a função da literatura era conscientizar o povo, sendo o escritor, incumbido de “mostrar o caminho da verdade”. Dessa forma, buscando revelar o subterrâneo da História da época da ditatorial de Getúlio Vargas, Jorge Amado escreve a História e contribui para a divulgação do partido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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1 Todas as citações que foram retiradas do romance pertencem a esta edição e a partir daqui a obra será referida pela sigla OSL, seguida do tomo em algarismo romano e da indicação das páginas utilizadas.


2 Esse termo é utilizado por Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira (1975), para designar os romances que professam uma ideologia partidária.


3 Mignolo, como foi apresentado no capítulo anterior, explicita que há dois tipos de convenções preestabelecidas, sendo que na convenção literária o leitor compreende que a obra não possui nenhum compromisso em dizer a “verdade”, enquanto que na convenção histórica o oposto acontece, isto é, o leitor entende o discurso histórico como a “verdade” dos fatos.


4 Ainda no ensaio de Mignolo, anteriormente apresentado, é mostrado que Parson define como imigrantes na narrativa literária os elementos que possuem referentes extratextuais, ou seja, que existem dentro do discurso literário e no discurso histórico. Nesta obra podemos citar várias personagens históricas, como Getúlio e Luis Carlos Prestes. Há também a entidade nativa, que, como explicita Mignolo, possui um referencial apenas dentro do discurso literário

5 SKDIMORE, Thomas E. Uma história do Brasil. Tradução de Raul Fiker. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.


6 Durante a narrativa verificam-se também as várias referências às notícias vinculadas pelos jornais, no entanto, para um estudo mais detalhado, seria necessário um levantamento dos jornais e uma comparação do discurso jornalístico com o literário, o que não será feito neste trabalho, pois o intuito é focalizar os elementos ficcionais e históricos


7 Levante, em Natal, insurgido por forças militares do Exército, conhecido também como Intentona Comunista. Ocorreu em novembro de 1935 e se caracterizou pela luta contra o governo de Getúlio Vargas e pela representação do comunismo no Brasil.


8 De acordo com os registros do CPDOC, a guerra civil espanhola foi uma batalha entre os adeptos do fascismo e do socialismo. Teve início em outubrode 1936 e término em março de 1939. Os membros da Falange Fascita foram apoiados pela Alemanha e a Itália, enquanto os repúblicanos tiveram apoio da União Soviética e dos comunistas e simpatizantes da esquerda que formaram o Batalhão de voluntários.

9 Muitas vezes o encadeamento dos fatos e datas, no interior da narrativa histórica obedece a uma intencionalidade do historiador, portanto, também é uma forma de construção.


10 Na época, era comum no meio operário os pais darem o nome de Luis Carlos Prestes aos filhos.


11 De acordo com Antonio Candido, o escritor François Maurial expõe que o grande arsenal do romancista é a memória, de onde extrai os elementos da invenção, e isto confere ambigüidade às personagens, pois elas não correspondem às pessoas vivas, mas nascem delas. Cada escritor possui as suas 'fixações da memória, que preponderam nos elementos transpostos da vida [...] no que toca às personagens, todavia reproduz apenas os elementos circunstanciais (maneira, profissão, etc) o essencial é sempre inventado (p.66-67)


12 Roche define como vocabulário marcado aquele que revela o engajamento do autor dentro da obra. Agrupa-os em três temas: “as 'palavras-bandeira' (as que os comunistas usam para identificar-se) por exemplo: comitê-célula e as 'palavras-etiquetas' (as que os outros usam para designar os comunistas), como Prestes, Lênin; as 'palavras-ação', que incluem as modalidades do trabalho e a organização dos comunistas, por exemplo greve, camarada; as 'palavras-inimigo', que indicam os homens, as ideologias e as instituições que os comunistas enfrentam, como Polícia, Integralista e nazista” (ROCHE,1995, p.20)


13 Fabiana Biutor Carelli, em sua dissertação Porões da memória: ficção e história em Jorge Amado e Graciliano Ramos, disserta que o subtítulo do terceiro tomo Luz no túnel é uma metáfora desgastada e ao mesmo tempo reveladora, que indica “que está-se dentro do túnel (sob o Estado novo); nele (e não no fim dele), há uma luz (o partido).” (p.30)

Por Adriana de Jesus Souza


  • sexta-feira | 06/04/2012 | Micele Ferreir...


    Um bom texto, bem explicativo. Parabéns.



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