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Substantivo e Adjetivo

Substantivo e Adjetivo

Substantivo e Adjetivo 

 

UNIVERSIDADE DO GRANDE RIO
ESCOLA DE EDUCAÇÃO
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

A SEMÂNTICA DA TRANSITORIEDADE ENTRE SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS


SUMÁRIO
RESUMO
INTRODUÇÃO
Capítulo I - CARACTERIZAÇÃO DE SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS
1.1 – Critérios de classificação
1.1.1 – Critério semântico
1.1.2 – Critério morfológico
1.1.3 – Critério sintático
Capítulo II – FORMAÇÕES
2.1 – Formações em –dor
2.2 – Formações em –nte
2.3 – Formações em –ista
2.4 – Formações em –ário
2.5 – Formações em –eiro
Capítulo III - TRANSITORIEDADE
3.1. – Substantivação de adjetivos
3.2 – Adjetivação de substantivos
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


RESUMO

Nesta monografia, desenvolve-se um estudo da semântica da transitoriedade entre substantivos e adjetivos no português do Brasil a partir dos trabalhos de Basílio (1981, 1995, 2001 e 2006) e Miranda (1979). Será mostrado que a classificação das gramáticas não atende suficientemente a distinção entre as classes por apresentarem mistura dos critérios semântico, morfológico e sintático; que para a classificação dos substantivos é adotado normalmente o critério semântico e para o adjetivo, o critério sintático. Basilio relata a necessidade de observância dos três critérios simultaneamente. Este trabalho da análise das formações X-dor, X-nte, X-ista, X-ário e X-eiro, analisadas no momento sincrônico. Será visto que todas as formações formam indistintamente substantivos e adjetivos e que as palavras derivadas representam, em grande maioria, nomes de agentes formadores de profissões e ofícios e que esses sufixos transmitem agentividades a suas bases, denotando especialidade às mesmas. As formações em –dor e –nte apresentam complementariedade e as formações em X-ista e X-eiro representam oposições nos graus de especialidade de seus agentes; o primeiro, especialista; o segundo, manual, prático.


INTRODUÇÃO

Voltado para o aspecto semântico das ocorrências de substantivos e adjetivos no português do Brasil, este trabalho pretende demonstrar que a classificação das classes de palavras, conforme as gramáticas escolares, não atende às necessidades do discurso, sobretudo, devido a mistura de critérios semânticos, morfológicos e sintáticos. Será feito um questionamento da imprecisão e insuficiência da atual classificação e procura-se tornar evidente que é no contexto que as palavras se distinguem e do contexto se pó atribuir uma classificação, na maioria dos casos.

Serão analisadas as formações X-dor, X-nte, X-ista, X-ário e X-eiro, no momento sincrônico da língua. Para a formação X-ário será feito um breve relato diacrônico por necessidade de distingui-la da formação X-eiro, pois ambas tem a mesma origem: o sufixo ariu(m) latim. Da bibliografia referenciada, os trabalhos de Basilio apresentam o maior suporte desta pesquisa por apresentar farto material na profundidade necessária a esta proposição.

O trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro capítulo trataremos da caracterização de substantivos e adjetivos. Ao tratar dos sufixos formadores dessas classes, serão feitas comparações com as posições de Rocha Lima (2005) e Bechara (2004), onde há conflito de posições e um contraponto com Basilio (2006), no qual a autora arremata o tema ao distinguir sufixos vazios de significado (posição de Rocha Lima) e sufixos com alguma significação (posição de Bechara). Nas definições propriamente ditas, tanto de substantivos como de adjetivos, Bechara usa termos sinônimos do vocábulo "nomear" (MEC 1986: 354 e 1052). Caracterização com interseção, portanto. Visando contornar a imprecisão das gramáticas, seguimos a posição de Basilio, na qual há necessidade de se conjugar os três critérios ao se classificar um substantivo ou um adjetivo.

No capítulo II serão abordadas e exemplificadas as formações propostas com vistas a provar a alternância destas classes em vocábulos morfologicamente idênticos. Em todas as formações, as análises estarão voltadas para os nomes de agentes, com ênfase nas profissões e ofícios resultantes dessas formações sufixais. Na análise das formações X-dor e X-nte, veremos a segunda complementando a primeira, ambas apresentando graus distintos de agentividade. Para as demais formações estudadas será demonstrada a predominância de formação de agentes profissionais, sendo formados em –ista os mais especializados e em –eiro, os menos especializados; braçais, por assim dizer. Nas palavras de Miranda (1979:87): "Em termos absolutos, as regras X-ista e X-eiro resultariam, pois como definidoras de status". Serão demonstrados casos de alargamento semântico, como engenheiro e banqueiro, que embora formados em X-eiro, são de alta especialidade; e ainda o vocábulo "companheiro", por ter um crescimento semântico especial na conjuntura brasileira.

E, finalmente, no capítulo III, abordaremos a transitoriedade entre as classes estudadas e seus problemas. Dentre os gramáticos, Rocha Lima (2005:291), assinala que o substantivo aparece às vezes empregado como adjetivo e Bechara (2004:145), prescreve que certos adjetivos são empregados sem qualquer referência a nomes expressos como verdadeiros adjetivos. Será mostrada a substantivação de adjetivos, a qual ocorre quando os adjetivos recebem alto grau de independência e adjetivação de substantivos, que, segundo Carneiro (2003:256), pode assumir várias formas: adjetivo, locução adjetiva, oração adjetiva, sufixação, além, é claro, do nosso estudo, o substantivo. A fim de alcançar os objetivos acima apresentados foi realizada uma pesquisa empírica com dados coletados da bibliografia e complementados por jornais, revistas e emissora de rádio citados nos exemplos relatados nesta monografia.


CAPÍTULO I

CARACTERIZAÇÃO DE SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS

Inicialmente, é necessário reconhecer que a tradição gramatical não dá conta de forma cabal da classificação das palavras em classes gramaticais, nem das formações sufixais. Pode-se observar que essa mesma tradição gramatical enfoca um mesmo tema sob pontos de vista divergentes. Veja-se, por exemplo, Rocha Lima, (2005: 208), que os sufixos são "vazios" de significação, ao contrário dos prefixos, que segundo o autor, "guardam certo sentido"(p. 207). Para Bechara (2004: 357), os sufixos "revestem-se de múltiplas acepções". Margarida Basilio (2006: 54) faz um contraponto ao distinguir sufixos semanticamente vazios (-al, -ico, -ário...), dos que carreiam noções adicionais (-udo, -ado, -ês, -ense, -ano, -al...).

Não concordamos com Rocha Lima na afirmação de que os sufixos são vazios de significação, a não ser que considerados isoladamente. Não faz sentido estudar os sufixos em si, mas sim, ligados às bases. Naturalmente a base é um elemento semanticamente mais pleno de significação que os sufixos, e os sufixos só podem exprimir algum significado se agregados às bases. No capítulo seguinte abordaremos os sufixos trabalhados nesta monografia. Trata-se, como se vê, de duas visões divergentes ou mesmo antagônicas sobre a mesma questão.

As gramáticas normativas, em geral, listam e classificam os sufixos de acordo com a classe gramatical das formas derivantes e das formas derivadas. Com relação à distinção entre substantivos e adjetivos, a fronteira é tênue e movediça no aspecto estrutural de que os membros destas classes não apresentam semânticas e situações de ocorrência completamente distintas, mas também pela conjuntura de que as gramáticas normativas do português utilizam diferentes critérios para a definição de cada classe, podendo, inclusive, atribuir classificação semelhante, ora para o adjetivo, ora para o substantivo.Em Bechara (2004: 112), substantivo é a classe de lexema que se caracteriza por significar o que convencionalmente chamamos de objetos substantivos; na página 143, define o adjetivo com a classe de lexema que caracteriza as possibilidades designativas do substantivo. Pelas definições acima, é fácil perceber que há fragilidade nos limites dessa distinção, uma vez que tanto "significar" do substantivo como "designativas" do adjetivo, equivalem a "nomear" (MEC 1986: 354 e 1052).

1.1 – Critérios de classificação

Embora haja imprecisão na definição de classes de palavras nas gramáticas, podemos determinar, pelo menos em linhas gerais, propriedades de adjetivos ou de substantivos, tais como concordância em gênero, número e função sintática, a partir de características normalmente consideradas próprias de substantivos e adjetivos. A questão dos critérios é muito discutida, pois paira sempre a dúvida se devemos classificar palavras por um único critério ou por um conjunto de critérios e quais seriam os critérios mais adequados. Para uma melhor caracterização, abordaremos substantivos e adjetivos sob os critérios semântico, morfológico e sintático.

1.1.1 - Critério semântico

Dizemos que as classes de palavras são definidas pelo critério semântico quando estabelecemos tipos de significado como base para a atribuição de palavras a classes (Basilio 2001:50). O substantivo pode ser caracterizado por designar seres e entidades; já o adjetivo é de definição bem mais difícil a partir de um critério semântico puro, dada a sua vocação sintática. De fato, o adjetivo não pode ser definido por si só, sem a pressuposição de um substantivo, já que sua razão de ser é a especificação do substantivo.Mesmo dependente do substantivo, Basilio (2001:50), prescreve que a função semântica do adjetivo é de importância crucial na estrutura lingüística, pois relativamente, o adjetivo teria a mesma razão de ser dos afixos, no sentido de permitir a expressão ilimitada de conceitos sem a exigência de uma sobrecarga da memória.

1.1.2 - Critério morfológico

Trata do enquadramento de palavras em diferentes classes, conforme as categorias gramaticais que apresentam, bem como suas variações de formas. Não distingue efetivamente substantivos de adjetivos, uma vez que estes possuem as mesmas categorias. A diferença, neste particular pode ser contornada pela distinção imanente/dependente, já que o gênero e o número dos adjetivos dependem do gênero e número dos substantivos a que se refiram, enquanto os substantivos têm gêneros próprios.

1.1.3 - Critério sintático

Trata da atribuição de classes pela posição em que pode aparecer no discurso; pela função sintática que pode desempenhar. A aparição como núcleo dos sintagmas nominais (sujeito, objetos e agente da passiva) compete ao substantivo; ao adjetivo é reservada a ocorrência como predicativo ou adjunto adnominal. Essa classe tem definição sintática bastante fácil, dada sua função natural em relação ao substantivo. Muitas vezes o adjetivo é definido simplesmente como palavra que acompanha, modifica ou caracteriza o substantivo. Para Basilio (2001:53), a caracterização puramente sintática do adjetivo é insuficiente, pois não o distingue de determinantes, os quais também acompanham o substantivo, porém, apontando e estabelecendo relações, enquanto os adjetivos, caracterizando ou especificando.
Conforme já abordamos, a gramática tradicional utiliza critérios diferentes para classificar os adjetivos/substantivos; normalmente critério semântico para o substantivo e sintático para o adjetivo. Ficamos com Margarida Basilio (2006: 22 e 23), ao relatar a insuficiência da classificação de classes de palavras por critério único, afirmando ser necessário o uso simultâneo dos três critérios acima descritos.


CAPÍTULO II

FORMAÇÕES

2.1 – Formações em -dor

Formam normalmente os chamados "nomes de agente". Conforme as gramáticas consultadas, trata-se de substantivos que caracterizam um ser pelo exercício ou prática de uma ação. O processo se estende também à nomeação de objetos instrumentais, porém, neste trabalho estaremos voltados para ações ou qualidades humanas. Margarida Basilio (2006:45) assinala que os nomes de agente se comportam como qualquer substantivo, embora possam também ser usados em algumas circunstâncias como adjetivos. Na página 87, a autora prescreve um alargamento das possibilidades de uso dos nomes de agente, destacando que apresentam em comum a característica de serem designadores que também podem ser encarados como atribuidores de propriedades. Os exemplos que serão apresentados confirmarão a posição de Basilio.

Como o foco da análise deste trabalho é o fator semântico, os mecanismos de concordância serão desprezados nos exemplos indicados no decorrer desta monografia. Como substantivo, as formações em –dor denotam atividade originária do agente e como adjetivo atribui agentividade ao substantivo a que se refere no enunciado.

a) Quando Reagan conseguiu falar ao telefone com o ditador Galtieri, já havia navios argentinos ancorados ao largo das Falklands (Galileu 192:70)
b) Todos os funcionários do estúdio, sem exceção, comungam do espírito empreendedor (Galileu 192:55).

Vimos que ditador em a) é um substantivo e incorpora a definição de nome de agente com sua característica primária de ação explícita; em b) empreendedor é adjetivo e transmite ação/agentividade ao substantivo espírito. É o caso da transitoriedade substantivo/adjetivo, em que o substantivo é usado como adjetivo.
Quanto ao aspecto durativo as formações em –dor podem expressar agentividade costumeira (os namoradores nem sempre se dão bem), ocasional (o vencedor do grande prêmio foi o Felipe Massa) ou permanente (os !Kung Sans são caçadores-coletores nômades. São excelentes rastreadores de animais (Época 449:61).
O grau de atividade dos nomes de agente em -dor também é variável em intensidade, podendo ser absoluto (Deus é o criador/Bill Gattes é o fundador da Microsoft), relativo – quando depende de fatores intervenientes (dentre os lutadores haverá um vencedor); todos lutadores são agentes, mas somente o vencedor goza de agentividade plena, ou passivo (Zé guardou o presente; era um conservador/Maria é uma sofredora); Zé e Maria abstêm-se de qualquer ação. Formações como consumidor, torcedor, observador, servidor... podem ter agentividade (+) ou (-) dependendo do contexto.

a) Os executivos da Petrobrás acreditam que o valor de mercado da empresa reflete uma percepção positiva do consumidor em relação à empresa e à qualidade dos produtos (Época 449:76).
b) Corrompida pela ganância e por lucros fáceis, a indústria engana e explora seus consumidores, chegando a exercer uma das práticas mais perversas, oferecendo medicamentos a preços muito altos justamente para quem mais precisa (Galileu 192:89).
c) Repare nos efeitos sociais incendiários: uma elite de servidores do Poder Legislativo tenta aumentar seus vencimentos em 90%, diante de uma inflação de 3% (Época 449:44)

Em a) consumidor tem agentividade suficiente para aumentar o valor da maior empresa brasileira, segundo seus executivos; portanto, agentividade muito expressiva; em b) consumidores são passivos diante de seus exploradores; em c) temos servidores que no contexto apresentado (mesmo que real) adquire uma agentividade que "a priori" não lhe pertence, pois segundo os dicionários Larousse (p. 695) e MEC (p.1047), servidor é aquele que serve; obsequiador; pontual. Aqui vemos que algumas formações em –dor, como nomes de agente alteram sua atividade/passividade conforme o emprego no discurso.

2.2 – Formações em -nte

Para Cunha & Cintra (2001:100), as formações em –nte são sufixos provenientes do particípio presente latino com aglutinação da vogal temática de cada uma das conjugações. Servem para formar substantivos e, com mais freqüência, adjetivos que se substantivam facilmente. Basílio (1981, 1995, 2001 e 2006), faz alusões às formações em –nte, destacando sua produtividade (intermediária) no português (-idade teria maior produtividade) na formação de adjetivos e sugere uma quase distribuição complementar entre a regra de adição –dor, que formaria sobretudo substantivos, e a regra de adição de –nte, que formaria sobretudo adjetivos. Mesmo de forma superficial com relação ao estudo em pauta, as afirmações de Cunha & Cintra já nos dão a indicação da transitoriedade entre substantivos e adjetivos. No tocante ao legado de Basílio, nosso trabalho evolui em paralelo, haja vista a atualidade das abordagens e flexibilidade de suas análises.

É facilmente observável que os falantes podem criar novos vocábulos apenas adicionando afixos ao material semântico da palavra-base. Embora possíveis com os verbos em geral, percebe-se que muitos adjetivos em – nte são bloqueados. Não se diz, por exemplo, que uma pessoa que come é uma pessoa comente(*). Em entrevista ao apresentador Boris Casoy no dia 12/06/07, o cantor e compositor Tom Zé, referindo-se aos musicais brasileiros, declarou que "o Brasil é um país começante", referindo-se a pouca projeção de talentos na área musical e artística. O entrevistado preferiu a forma bloqueada começante, possivelmente, mesmo de forma inconsciente, mostrar sua rebeldia e criatividade, rompendo assim, com esse paradigma. Um caso de repercussão e muito estudado foi o caso do "imexível" pronunciado por um eminente político, que embora estranho ao uso, está de acordo com as regras de formação de palavras. De forma análoga pode-se criar novos adjetivos do tipo analisado (X-nte) simplesmente adicionando um sufixo adjetivador a uma base verbal. Por exemplo, uma cena comovente é uma cena que comove (uma cena cuja natureza é tal que comove a platéia; um animal agonizante é um animal que agoniza, está agonizando (passando pelo estado de agonia).

De acordo com colocações de Miranda (1979) e Basílio (1981), o sufixo -nte é produtivo sobretudo na formação de adjetivos. Entretanto, os adjetivos formados pelo acréscimo de -nte a uma base verbal, diferentemente das formações em –dor, não são agentivos, isto é, não atribuem agentividade ao elemento a que se referem no contexto. Assim, por exemplo, em cena comovente ou animal agonizante, não consideramos cena ou animal como agentes, apenas especificamos propriedades ou qualificamos passivas. A situação é bem distinta da de casos como Deus é o criador, onde a formação em -dor atribui a situação de agente ao termo a que se refere. Esta diferença, naturalmente, se relaciona ao fato de que adjetivos como comovente, agonizante, etc., não podem ser usados como substantivos. Como substantivo, as formações em –nte traduzem noções de agentividade com grau variado; temos agentividade elevada em presidente, dirigente, comandante, etc., intermediária: ajudante, militante, estudante, etc. ou baixa:
_____
(*) forma bloqueada
dependente, servente, depoente, etc.
Em reunião com os responsáveis, o presidente exigiu data e horário para o fim da crise aérea.
Isaac Newton era um estudante fervoroso de alquimia e envenenou a si mesmo pelo contato com o mercúrio (Galileu 192:14).
A verdade é que a maioria dos senadores está fazendo "lobby" para que as explicações de Renan sejam convincentes e o processo seja arquivado. Afinal, qual senador não tem um dependente ou uma amante bancada por um lobista? (Lúcia Hipólito - Rádio CBN 11/07/07).

Os três exemplos acima mostram a variação da agentividade dos substantivos. Ainda com relação aos substantivos, freqüentemente encontramos inúmeros com a mesma terminação, em que o parentesco morfológico com o verbo é observável (por exemplo, amante [amar], ajudante [ajudar], combatente [combater], militante [militar], imigrante [imigrar] etc.), com adjetivos e substantivos que não derivam de nenhum verbo em português como: contente, inocente, gigante, paciente. Por exemplo, eu posso dizer que o livro é emocionante ou que o livro (até agora) está emocionante. No primeiro caso, propriedade inerente (estado absoluto), no segundo, propriedade passível de mudança (estado transitório ou inconcluso).

Algumas palavras possuem significados distantes (quando muito) da semântica dos verbos que teriam derivado – por exemplo, os vocábulos corrente e comovente. Além deste sufixo ocorrer tanto em adjetivos quanto em substantivos, ele estrutura dois grupos bem distintos: aquele em que as derivações vêm de um verbo, os chamados deverbais, comovente exemplifica este caso; e aquele cuja derivação é não-verbal, no sentido de que sua composição atual não comporta mais o sufixo -nte, porque este se incorporou a própria raiz, como é o caso de corrente. Já nos deverbais, este sufixo é interpretado como denotador de aspecto, pois indica que o tempo do evento inclui o tempo de referência, o que certamente resulta na interpretação de que o evento ultrapassa o momento de referência. Neste aspecto, comovente, por exemplo, indica que o que comove extrapola o momento da enunciação. Medeiros (2004) afirma que "a corrente não é algo que corre", por isso sua derivação não passa pelo verbo e o sufixo -nte não é um nó funcional e, portanto, não há indicação aspectual. Mas, o que ocorre se um falante entende que a corrente corre? Uma vez que apresenta movimento, mesmo aquela corrente feita de elos. E se o falante entende que paciente vem de ser paciente, ter paciência, e entende que paciente é aquele que está no estado (durativo) de esperar? Talvez um estudo etimológico apresente evidências.

No português atual, -nte é reconhecido como unidade morfológica, sendo depreendido em palavras como militante, escrevente e estudante, entre outras, não podendo ser mais ser interpretadas como formas nominais do verbo, o que revela mudança na evolução do latim para o português. Sem uso obrigatório e com grandes restrições de aplicabilidade, -nte apresenta-se como sufixo derivacional no estágio atual da língua (Basílio 1981). Além da não-obrigatoriedade de inclusão de –nte no paradigma dessas formações-tipo, a relação verbo-adjetivo reforça o status derivacional desse afixo no português contemporâneo. Como se sabe, os paradigmas flexionais tendem a ser menos flexíveis que os derivacionais: são conjuntos fechados, com pequeno contingente de casos excepcionais.

Para Gonçalves (2001) há lacunas na relação verbo-adjetivo X-nte, não havendo distribuição regular, coerente e precisa entre as formas desse paradigma. Como não há aplicabilidade maciça às formas verbais, -nte perde em generalidade e, com isso, não pode ser considerado flexional: não é possível fazer previsões gerais do tipo "todo verbo recebe a informação de tempo presente" ou "qualquer nome pode ser pluralizado". Se não há generalidade suficiente para que -nte se aplique a toda uma categoria lexical, é quase nula a possibilidade de diagnosticá-lo como afixo flexional, conforme abaixo:
a) cativar – cativante
b) desgastar – desgastante
c) amassar - ?
d) arrastar - ?

Uma hipótese para a mudança de status do afixo –nte de flexão para derivação é a perda da função do particípio presente no português atual, a qual, segundo Gonçalves, foi assimilada pelo gerúndio. Vimos que –nte forma indistintamente adjetivos e substantivos, com predominância dos primeiros, diferentemente das formações em –dor que formam majoritariamente substantivos, enfatizando o fato de que a definição de classe quase sempre depende do contexto.


2.3 – Formações em -ista

Segundo Basilio (1995), há basicamente três tipos de formações em -ista: as que expressam agentividade direta caracterizada pela base; as que formam substantivos que designam indivíduos como produtores ou criadores do elemento especificado na base; e as que designam indivíduos como executores deste instrumento. Cunha & Cintra (2001:97) ao abordar a derivação sufixal em –ista, destaca a possibilidade de se formar substantivos e adjetivos a partir de outros substantivos e adjetivos, acrescentando nas afirmações de Basilio a ocorrência de formações em –ista formadoras de nomes pátrios e gentílicos. Para Bechara (2005:358), trata-se de um sufixo formador de substantivos designadores de agentes e instrumentos. As posições acima formam a base desta pesquisa, a qual tem fundamentação predominante nos estudos de Basílio, por apresentar detalhamento e profundidade. Consideremos os exemplos abaixo:
a) Arte – artista.
b) Língua – lingüista.
c) PT – petista.
d) Norte – nortista.

Em a) temos formação em -ista que expressa agentividade direta caracterizada pela base: a palavra base é um substantivo comum que designa uma obra literária ou artística e -ista forma substantivo que designa indivíduo como produtor ou criador do elemento especificado na base. Outros exemplos são contista, cronista, etc. Em b), a formação apresenta agentividade indireta; a base é um substantivo comum ou uma base presa que designa entidades passíveis de estudo, prática ou especialização, e -ista designa indivíduos como especialistas, teóricos ou práticos, em relação ao elemento especificado na base. Outras construções do mesmo tipo são: oftalmologista, anestesista, etc. Em c) a agentividade é abstrata e mental, especificada apenas em termos de adesão; a base é uma sigla, correspondente a um nome próprio, que nomeia e caracteriza uma instituição política, geralmente um partido ou corrente ideológica/religiosa; neste tipo de formação, -ista se adiciona à base para formar substantivos que designam indivíduos por sua adesão à instituição nomeada e/ou especificada na base. Outras construções do mesmo tipo são: budista, petebista, etc. Uma outra possibilidade, dentro do mesmo tipo de formação, é aquela em que a base nomeia diretamente um líder político, isto é, um indivíduo, em vez de uma agremiação, como em getulista, lulista, etc. Ainda semelhante a c), a base pode ser um verbo e -ista designa indivíduos por sua adesão a uma atitude representada pela base verbal, como entreguista, conformista, etc. Finalmente, em d), a base é um substantivo concreto e -ista forma adjetivos pátrios ou gentílicos, como nortista, campista, etc.

Para Basílio (1995), os exemplos citados apresentam uma distinção de base semântica nas formações X-ista: a idéia de atuação e a idéia de adesão. Na adesão, o indivíduo se caracteriza por uma atitude interna mental, definida por seu objeto, expresso pela base da formação. Na atuação, o indivíduo atua, de um modo ou outro, sobre o objeto definido pela base. A essa distinção semântica corresponde uma distinção categorial: as formações em -ista com semântica de adesão têm possibilidade natural de uso adjetivo (kardecista, petista), ao contrário das de semântica de atuação, circunscritas ao uso substantivo (tenista, pianista).
Para Miranda (1979), o traço semântico é comum, o qual indica "ocupação", "ofício"; essa autora afirma que em nossa cultura, as formações em –ista, representam as atividades consideradas de maior prestígio social; seria uma forte oposição a X-eiro que representam as profissões desqualificadas ou marginalizadas. Nas palavras da autora (1979:87): "Em termos absolutos, as regras X-ista e X-eiro resultariam, pois como definidoras de status". Bechara (2005:358) ao comentar os nomes de agente formados pelo sufixo -ista, declara:

É constantemente contrariada pela realidade da língua a hipótese de se estabelecer uma distribuição complementar em tais construções agentivas calcada nos critérios ‘grau prestígio social’, ‘formalidade’ e ‘grau de especialidade’. Não se podem deixar de lado os valores semânticos dos elementos que integram os constituintes e seus reflexos não só nos produtos derivacionais, mas também as motivações de contexto. A concepção afixocêntrica na produção lexical está sendo revista, para pôr em evidência o papel que desempenham as bases e os mecanismos derivacionais de criação lexical.

Como se vê, os comentários acima fazem oposição às afirmações de Miranda da página 87, mas corroboram com nossa linha de pesquisa, a qual apresenta flexibilidade das formas em –ista, evocando a necessidade de um contexto para que as afirmações sejam plenas, pois esse contexto pode alterar boa parte das análises.

2.4 – Formações em -ário

Muitas de nossas gramáticas tradicionais tratam os sufixos -ário e –eiro como elementos morfológicos idênticos. Alguns autores, como Bechara (2004) e Rocha Lima (2005), na lista de afixos da língua portuguesa, colocam juntos os dois sufixos, bem como seus exemplos. Evidente que esse posicionamento de alguns gramáticos não é fruto de equívoco ou irresponsabilidade lingüística. Provavelmente, deve-se ao fato de ambos serem originados do mesmo étimo latino: o formativo -ariu(m).

Nas gramáticas referenciadas encontramos as afirmações de que o sufixo -ário é usado na formação de nomes designativos de ocupação, ofício, profissão ou lugar onde se guarda algo. Para este trabalho consideramos X-ário e X-eiro formações distintas em virtude de apresentarem funções semânticas diferentes. Souza (2006) faz um estudo aprofundado das formações X-ário no Brasil, a qual distingue sete grupos de formativos deste tipo, a saber: 1) locativo, 2) agente profissional, 3) agente circunstancial, 4) objeto, 5) adjetivo, 6) beneficiário e 7) classificador zoológico. Dadas as limitações deste trabalho, foram analisados essencialmente os tipos 2 e 3) (nomes de agente) e subliminarmente os tipos 5 e 6 por apresentarem também, traços humanos (+ ou – agentivos).

Diferentemente das formações já abordadas, foi feita uma explanação diacrônica de algumas incorporações X-ário ao Português por considerarmos relevantes no uso atual. Segundo a autora as datações mais antigas do sufixo –ário remontam aos séculos XIV e XV, mas que somente no século XIX ocorreu uma importação maciça de agentes em –ário na língua. Ainda segundo Souza, é do século XX o surgimento do maior número de agentes X-ário, apresentando-se mais especializados, distinguindo-se da noção veiculada pelas formações agentivas mais antigas (pontuais) e das formas X-eiro, que ainda hoje remetem a uma profissão de caráter pontual.

Em pesquisa realizada por Marinho (2000) nas obras escritas entre os séculos XII e XV, não houve registro de formação do tipo X-ário, o que permite admitir a inexistência desse sufixo à época. Por outro lado, Marinho relata um grande número de palavras em –eiro, como ‘cavaleiro’, ‘escudeiro’, etc. O fato do surgimento de elevado número de formações X-ário nos séculos XIX e XX pode ser atribuído à Revolução Industrial, que propiciou o surgimento de um grande número atividades profissionais. Desse modo, parece haver uma distribuição complementar entre –ário e –eiro: o primeiro mais agentivo (e mais especializado): industriário, funcionário; o segundo mais locativo (mais braçal): ferreiro, chaveiro.
No português contemporâneo há convivência com os dois tipos de formação, entretanto, podemos observar que X-ário se estende e se especializa. Nessas construções, as profissões apresentam um caráter mais genérico que seu concorrente –eiro; -ário é cada vez mais disperso (publicitário, empresário) e –eiro permanece restrito e localizado (pedreiro, padeiro). Consideremos os vocábulos abaixo:

Aeroviário, empresário, rodoviário, industriário.
Trata-se de nomes de agentes profissionais formados por bases substantivas e concretas, cujas semânticas se mantêm inalteradas (aerovia, empresa, rodovia, indústria). A agentividade expressa por –ário deve ser considerada como genérica, pois não age diretamente sobre sua base, formando profissões não-pontuais. Assim, rodoviário, constitui um agente mas não pontual ou específico, e sim, um representante de toda uma classe profissional.

Para Souza (2006), existe ainda, uma minoria dos nomes de agentes profissionais cujas bases são abstratas (funcionário, concessionário), mas apresentam as generalidades comuns: de uma base nominal (concreta ou abstrata), adiciona-se o sufixo –ário, formando um substantivo que veicula a noção de agente profissional.
Agentes circunstanciais: estagiário, voluntário, presidiário, universitário, falsário. Este tipo de vocábulo é formado predominantemente por bases livres de substantivos abstratos e o resultado pode ser um substantivo ou um adjetivo. Para facilitar o entendimento, observe os pares abaixo:
Estagiário - baderneiro
Voluntário - cachaceiro
Universitário - frangueiro
Presidiário - trapaceiro
Falsário - farofeiro

A semântica das formações circunstanciais em –ário podem expressar atitudes positivas (maioria) ou negativas (minoria), enquanto no caso de –eiro, as formações resultantes são depreciativas, conforme Basilio (2001). Confrontando os agentes com formações em X-ário, podemos observar uma diferença semântica entre eles; os agentes profissionais denotam profissões propriamente ditas, ou seja, um ofício, ao passo que os agentes circunstanciais denotam atividades de caráter transitório; diferem ainda, nas bases de formação: os agentes profissionais são formados por bases concretas, enquanto os agentes circunstanciais são formados por bases majoritariamente abstratas.

Outra diferença entre os agentes é que os agentes profissionais apresentam dados de caráter neutro, justamente por se tratar de profissões (aeroviário, empresário, rodoviário, industriário); já entre os agentes circunstanciais, vários apresentam semântica negativa (falsário, presidiário, mercenário, estelionatário). É claro que tanto aeroviário como estagiário designam agentes, mas é fácil encontrarmos uma diferença entre eles; o primeiro remete a idéia de um profissional genérico; o segundo não remete propriamente a uma profissão, mas de uma circunstância que alguém se encontra.

O grupo dos adjetivos definido por Souza (2006) traz pontos de interseção com o grupo dos agentes profissionais. Tomemos como exemplo ‘imobiliário’ que tem semântica de agente, mas que se torna um adjetivo, bastando para isso ser inserido num contexto como ‘agente imobiliário’. O grupo de beneficiário da autora traz a peculiaridade de ter base verbal e designam sujeitos que recebem ou se beneficiam de algo; tem como resultado um substantivo ou um adjetivo. Diferentemente dos grupos de agentes, este grupo apresenta relação mais paciente (beneficiário, destinatário, locatário). Faz oposição às formações em x-dor, que conforme já visto, trazem predominantemente, um sujeito ativo. Souza (2006), à semelhança dos autores referenciados nas formações em X-ista, relata a especialização adquirida pelos agentes profissionais em X-ário. Nas palavras da autora "Tais profissões assumem, ao longo dos anos, maior prestígio social, em virtude de exigirem maior nível de educação formal/intelectualização que as formas em –eiro". A citação da autora ratifica as descrições já abordadas acima, indicando –ário como agente profissional genérico e –eiro, sua oposição, um agente pontual, artesanal, prático.

Para entendermos a semântica e produtividade das formações X-ário na Língua Portuguesa, entendemos que somente um estudo da morfologia diacrônica pode oferecer as informações necessárias, pois esse afixo (-ário) concorreu com outro (-eiro) provenientes do mesmo étimo. Assim, -ário e –eiro não são sinônimos, pois apresentam percursos históricos diferentes e merecem ser tratados de forma individual e sejam observadas suas peculiaridades.

2.5 – Formações em -eiro

Pauliukonis (1981:8), afirma que os agentivos em -eiro designam profissões ligadas a atividades manuais, braçais. Basílio (2001:9) ao tratar do acréscimo semântico nas palavras derivadas, prevê a adição de –eiro a substantivos concretos, para formar outros substantivos que indicam indivíduos que exercem alguma atividade sistemática em relação ao objeto concreto do processo derivacional. Na página 87 a autora classifica o sufixo –eiro em uma de suas acepções, como adjetivo pejorativo. Neste caso, combinado com substantivo, caracteriza um indivíduo pela habitualidade de uma ação exercida em relação ao substantivo, como igrejeira, festeiro, noveleiro, etc.

Em estudo sobre as construções X-eiro no português do Brasil, Gonçalves (1996) propõe que as formas X-eiro sejam distribuídas por seis grupos de afinidade morfossemântica: a) agentivos profissionais (‘açougueiro’, ‘jardineiro’), b) agentivos habituais (‘fofoqueiro’, ‘marombeiro’), c) agentivos naturais (‘coqueiro’, ‘jambeiro’), d) locativos (‘cinzeiro’, ‘galinheiro’), e) intensificadores (‘nevoeiro’, ‘lamaceiro’) e f) modais (‘certeiro’, ‘grosseiro’). Destes grupos, esta pesquisa enfocou os grupos a) e b) em atendimento aos objetivos propostos. Nos agentivos profissionais há uma tendência de apresentar noções de espaço onde as atividades profissionais se desenvolvem. Os exemplos já citados no grupo b) tomam o lugar eu que se desempenha a função como base. Se o local é irrelevante ou inexistente para a definição do agente profissional, o objeto, numa relação metonímica pode servir de base para designação desse agente (pedra/pedreiro). O sufixo -eiro designador de agente profissional pode ser entendido como aquele que trabalha com o que está especificado na base; caracteriza-se por possuir uma base nominal concreta, da qual resulta um substantivo também concreto. É o que se percebe em exemplos como açougueiro e jardineiro. Portanto, bases como açougue e jardim possuem características comuns de concretude e classe nominal, o que ocorre também com seus respectivos agentivos.

Nos agentivos habituais encontramos formações X-eiro que designam habitualmente ações socialmente reprovadas como fofoqueiro e marombeiro. Essas formações se constituem figuradamente em uma atividade que serve de base para expressar o agente. O fato de um ofício ou profissão envolver uma prática rotineira pode ter sido o aspecto motivador para a extensão do significado, tornando-o pejorativo. O –eiro agente habitual pode ser traduzido, nas palavras de Marinho (2004: 44), como "aquele que pratica o que está especificado na base com freqüência". É o caso, entre muitos, de fofoqueiro e marombeiro. Se o produto dos agentes profissionais é um substantivo, o dos habituais pode ser tanto um substantivo quanto um adjetivo, ou seja, os itens lexicais apresentam uma transitoriedade lexical. De acordo com Gonçalves (1996), uma característica desse grupo é a expressão da pejoratividade: as formações são criadas com o intuito de atribuir um juízo de valor depreciativo ao ser determinado. Tanto na análise de Marinho (2004) quanto na de Gonçalves (1996), existem dois tipos de formações agentivas com o sufixo –eiro: as profissionais e as habituais.

A esta altura da pesquisa já não nos parece essencial apresentar exemplos das formações em -eiro, como indicadoras de classes de palavras, pois já houve evidências suficientes para determinarmos que os vocábulos formados em –eiro, desdobram-se em dois: um substantivo e outro adjetivo; mas para concluirmos este aspecto:
a) O jardineiro chegou.
b) Tenho um amigo jardineiro.
Está bastante claro que em a) jardineiro é substantivo e em b) é adjetivo. O mesmo raciocínio vale para as demais formações já estudadas, salvo, exceções e restrições, algumas já aventadas na análise das formações X-nte.

No tópico onde estudamos as formações X-ista, fizemos uma comparação com X-eiro: o primeiro especialista, o segundo seria manual. Agora passaremos a questionar a plenitude do que foi abordado. Vejamos a definição de "especialista", segundo o Dicionário Aurélio (1986:701), dentre outras definições, temos: Pessoa que tem habilidade ou prática especial em determinada coisa. Se tomarmos a definição apresentada, poderemos acertadamente igualar –eiro a –ista. Formações como leiloeiro e toureiro exigem habilidades e práticas especiais; seriam incompatíveis com as funções se esses profissionais não manifestassem práticas especialíssimas. Agora a ressalva quanto ao trabalho caracteristicamente manual atribuído aos agentes formados por X-eiro (Pauliukonis:1981). Recorremos novamente ao Aurélio (1986:1084) e lá está registrado, dentre outras definições: relativo a mão; habilidade manual. Com essa definição teríamos problemas ao classificar o cirurgião-dentista e o médico legista, pois como sabemos são de alta especialidade e ambos estariam na mesma categoria do sapateiro e do torneiro, se bem que já há torneiro mecânico como dirigente político. Sem dúvidas, o sufixo –eiro carrega um caráter predominantemente informal, mas esse fato está relacionado ao seu elemento formativo –ariu(m), o qual perdeu espaço, especialmente para –ário e –ista, com o surgimento de novas profissões. Assim como existem as formações X-ista (como as já vistas) que concorrem com –eiro em especialidade, há também as formações X-eiro altamente especializadas e aceitas como tais.

Temos casos como engenheiro, que, segundo Miranda (1979) houve um alargamento semântico, pois era utilizado anteriormente para designar os trabalhadores dos engenhos. De forma semelhante temos banqueiro, o dono da banca da Idade Média, o intermediador de trocas, que com o surgimento do bancário após a Revolução Industrial, permaneceu o dono do banco, elevou assim o "status" e manteve a etimologia. Encerraremos este item com a análise da palavra companheiro, que sem dúvida teve uma evolução semântica recente no português do Brasil. De tão referendada pelo presidente Lula, mereceu destaque da Revista Língua Portuguesa nº 21 com o sintagma "companheiro Bush". Ao manifestar intimidade com o colega chefe de nação, logo no discurso de posse em 2003, Lula, segundo a revista fez quinze citações a "companheiro Bush". Nada de anormal ao tratar com seu par chefe de executivo. Porém, se observarmos que quem fala é Lula, ex-sindicalista que foi por longa data porta-voz da esquerda, chamar de companheiro o líder da maior nação capitalista do mundo seria um inconveniente. Em desacordo com o uso atual temos o fato de, segundo a revista, o signo "companheiro" virou ícone do discurso socialista na segunda metade do século XX. Assim, atribuir companheiro ao presidente Bush é contraditório, apenas com a ressalva de que depende do grupo, classe ou pessoa que o usa. A Igreja sinalizou o termo com sentido de igualdade e fraternidade. Entre os comunistas significava "colega", "amigo", "parceiro"; era uma apreciação positiva sobre a pessoa. Mas ninguém explorou melhor o vocábulo que o Partido dos Trabalhadores (PT). Era sua ideologia. Com a ascensão do PT, o termo integrou a vida política em geral, não se distinguindo mais de causas comunistas ou socialistas e o presidente Lula é o contribuidor inestimável deste acréscimo semântico aos companheiros e companheiras. Ainda de acordo com a mencionada revista, dona Marisa prefere ser tratada de primeira companheira a primeira dama.


CAPÍTULO III

TRANSITORIEDADE

Muitos gramáticos assinalam a existência de vocábulos que, pertencentes a uma determinada classe, podem funcionar como termos de outras de classes. Vejamos dois casos: Rocha Lima (2005:291) - "O substantivo aparece às vezes empregado como adjetivo, e disto nos dá exemplo a seguinte expressão, dentre outras: É muito verdade o que estou lhe dizendo"; Bechara (2004:145) - "Certos adjetivos são empregados sem qualquer referência a nomes expressos como verdadeiros adjetivos. A esta passagem de adjetivos a substantivos chama-se substantivação". Conforme as transcrições acima, podemos perceber que a classificação das palavras não pode ser rígida, absoluta. As fronteiras que as delimitam são relativas. A mesma palavra pode ser de uma ou outra espécie conforme o contexto.

Esse fenômeno também é conhecido por derivação imprópria ou conversão. Não adotamos o primeiro conceito por entendermos que não havendo processo morfológico, não há derivação e preterimos o segundo porque conversão denota mudança, transformação de uma coisa em outra; um fato duradouro e de mão única; já transitoriedade denota posição próxima, mudança sutil e um processo em curso. Conforme vimos, apenas a alternância na colocação de uma palavra na frase é capaz de alterar sua classe. É, portanto, muito estreita a relação entre termo determinante (substantivo) e termo determinado (adjetivo), podendo ocorrer com a mesma forma. Se atribuirmos uma qualidade ao substantivo, teremos um adjetivo; já para que um adjetivo tenha valor substantivo, devemos seguir o seguinte raciocínio: o adjetivo tem função de caracterizar, especificar ou qualificar seres; ao substantivo cabe a função de designação. Segundo Basilio (2001:61), o tipo mais eficiente de designação é a designação por caracterização. Então, para esse intento, basta que se use uma palavra caracterizadora (adjetivo) na função designadora (substantivo).

a) Há três anos Rafa foi diagnosticado como autista.
b) Rafa é um caso raro entre os autistas brasileiros (Época, 473:76).
Nesses exemplos, vimos que o adjetivo (autista) usado na frase a) caracteriza a pessoa; na frase b) o mesmo adjetivo é usado para designar a pessoa portadora da propriedade expressa pelo adjetivo então substantivado.

3.1 – Substantivação de adjetivos

É a utilização de adjetivos na função de substantivos. Quando a qualidade referida a um ser, objeto ou noção for concebida com grande independência, o adjetivo que a representa deixará de ser um termo subordinado para tornar-se o termo nuclear do sintagma nominal. Dá-se então a substantivação do adjetivo, fato que se exprime, gramaticalmente, pela anteposição de um determinante (geralmente o artigo) ao adjetivo.
a) O povo brasileiro é alegre.
b) O brasileiro é alegre.

Na primeira, brasileiro é adjetivo, na medida em que é a palavra caracterizadora do termo-núcleo; na segunda, substantivo, porque é a palavra-núcleo, dado o grau de autonomia que exerce na frase. A subdivisão dos termos portugueses em substantivo e adjetivo obedece a um critério basicamente sintático, funcional.
Quando a transitoriedade é deliberada, ou seja, quando a palavra de uma classe também apresenta as propriedades de outra, temos duas palavras, uma de cada classe. Isso ocorre com palavras como doente, que apresenta propriedades de substantivo e de adjetivo. Na função de adjetivo, denota característica de uma pessoa que carece de restabelecimento da saúde. Sendo adjetivo, doente apresenta grau comparativo, pode ser intensificado, funciona como predicativo e como adjunto adnominal.

José está mais doente que João.
José está muito doente.
Estou achando esse menino meio doente.
Pessoa doente é desfigurada.

Já o substantivo doente, designa uma pessoa que tem em si a propriedade permanente de falta de saúde. Sendo substantivo, doente ocorre precedido de determinante, pode ser qualificado por adjetivos e ocupa núcleo de sintagmas nominais.

Este doente está debilitado.
Gosto mais de doente que de criminoso.
O estresse faz doentes a cada momento.

A necessidade de distinção se mostra necessária apenas em casos como os abaixo:
a) Este doente está doente demais.
b) Este muito doente está debilitado (**).
c) Eu prefiro doente demais calmo (**).

Constatamos que o substantivo doente pode ser predicado pelo adjetivo doente intensificado por demais, como em a), mas não pode ser intensificado, como vemos em b) e c). Os dados acima mostram, portanto, que não se trata de uma palavra que ora funciona _____
(**) forma não aceita
como uma classe, ora como outra; trata-se de palavras muito próximas, porém, minimamente distintas.
Conforme vimos no Capítulo I, não podemos caracterizar uma dada palavra como substantivo ou como adjetivo exclusivamente por um critério, dentre os estudados. Segundo Basilio (2006:83), não basta observar que uma palavra pode ocorrer em contextos normalmente ocupados por substantivos; é necessário que a palavra ocorra nesses contextos, mantendo seu valor de substantivo, isto é, sua função de denotação de seres ou entidades e determinar as concordâncias pertinentes.
Normalmente encontramos nas gramáticas afirmações de que as palavras que podem vir precedidas de artigo são substantivos. Embora assertivas dessa natureza constituam a maioria das ocorrências, corre-se o risco de resultados inadequados.

O arrogante do policial me agrediu.
O autoritário do professor ficou irritado com a minha pergunta.

Nas frases acima, temos formas adjetivas precedidas de artigo. Essas ocorrências não devem ser consideradas como substantivos, porque arrogante e autoritário, apesar de precedidas pelo artigo definido, continuam qualificando policial e professor, não denotando, portanto, seres ou entidades.

3.2 – Adjetivações de substantivos

A adjetivação, segundo Carneiro (2003: 256), pode assumir várias formas: adjetivo, locução adjetiva, oração adjetiva, sufixação, além de substantivo (trataremos apenas desta última). O adjetivo é tido como uma palavra que acompanha o substantivo para atribuir-lhe alguma qualidade ou propriedade, como elegante, dominador, monetário, etc. Isoladamente, tais palavras são tidas pelas gramáticas como adjetivos, devido ao maior número de ocorrências na Língua Portuguesa. Essa é a situação geral, a mais elementar.

Já vimos ao estudar as formações, que os nomes relativos às profissões são substantivos, porém, freqüentemente usados como adjetivos; são as adjetivações dos substantivos de que ora tratamos. Numa seqüência de dois substantivos, o segundo qualifica/especifica o primeiro.
Nesta firma há funcionário-fantasma.

Vimos no exemplo acima, que o elemento central do significado do substantivo é tomado como um predicado que qualifica o outro substantivo. Assim, fantasma corresponde a uma qualificação como de inexistência ou existência duvidosa. Há ainda uma ênfase no efeito estilístico obtido ao se usar um substantivo para fins de qualificação em vez de adjetivo; a força de expressão é sempre maior, porque inesperada. Funcionário-fantasma é muito mais enfático que funcionário fictício, porque a qualificação se incorpora na própria denominação, enquanto em funcionário fictício se mantém a adjetivação como uma qualificação comum.
Além das qualificações, os substantivos podem surgir como especificadores de outros substantivos. Mais comumente nas especificações de cores, e esporadicamente, quando surgem dois nomes de agente para um só ser. Os casos mais comuns não são objeto desta monografia.

O segundo bate-boca entre a deputada Cida Diogo (PT-RJ) e o estilista-deputado Clodovil Hernandez (PTC-SP) poderá encurtar a carreira do extrovertido e controvertido parlamentar (O Globo: 24-04-07).

O deputado estadual Daniel Messias (PSDB) diz que um dos pontos positivos do empresário-candidato é a conscientização de que a candidatura titular da base aliada é do vice-governador Alcides Rodrigues, e que a sua é a candidatura reserva (O Globo: 20-11-05).

É interessante observar que embora haja duas especificações para o mesmo ser, há uma hierarquia, de modo que um agente especifica/modifica o outro. Os termos estilista e empresário são enfáticos e prevalecem sobre deputado e candidato. Outra vez fez-se uso de estilo (e humor) para retratar fatos da política brasileira atual.

Pelo exposto, fica evidente que devemos levar em conta o fato de que os substantivos se prestam para além de nomear seres. Numa linguagem mais elaborada desempenham os papéis primariamente exercidos pelos adjetivos, como qualificação e especificação de seres. Do ponto de vista puramente lexical, as construções vistas na adjetivação de substantivos são consideradas como substantivos compostos; porém, nossa análise esteve voltada para os substantivos de per si.


CONCLUSÃO

Nesta monografia, analisamos a semântica da transitoriedade entre substantivos e adjetivos no português do Brasil nas palavras formadas por X-dor, X-nte, X-ista, X-ário e X-eiro, no momento sincrônico; apenas por necessidade de distinção entre as formações X-ário e X-eiro, houve uma rápida passagem pela diacronia dessas formações. Para tanto, utilizamos para corpus a bibliografia relacionada e jornais, revistas e programas audiovisuais.

Para a análise do tema, o trabalho foi dividido em três capítulos, a fim de que pudéssemos caracterizar e/ou distinguir um substantivo de um adjetivo. Foi de pronto constatado que as definições das gramáticas não atendem aos requisitos de caracterização, pois mistura critérios semânticos com sintáticos. Vimos que autores consagrados como Rocha Lima e Bechara tratam temas (no caso analisado, os sufixos) de formas divergentes, e mesmo, antagônicas. Nos socorremos com Margarida Basilio, que nos forneceu indicações da necessidade de adotarmos os critérios semântico, morfológico e sintático, simultaneamente aos definirmos uma palavra com adjetivo ou substantivo.

Na análise das formações estudadas vimos que todas formam essencialmente nomes de agentes, com predominância na formação de profissões. Pelo que foi apresentado ficou demonstrado que as formações X-dor e X-nte atuam em complementaridade e que os agentes formados, desempenham funções de adjetivos ou substantivos com agentividade alta, média ou baixa. Já as demais formações analisadas estão mais voltadas à formação de profissões, as quais carregam uma certa dosagem de especialidade ou praticidade demandada pela base da palavra. Assim, as formações X-ista seriam as mais especializadas e as formações em X-eiro, as de menor qualificação ou mesmo, pejorativas.

No entanto, as proposições não foram plenamente ratificadas, pois foi visto que há formações em –eiro de alta especialização e formações em –ista, com características práticas, manuais. Miranda (1979), ao fazer uma comparação entre as formações X-ista e X-eiro, afirma: as formações em –ista, representam as atividades consideradas de maior prestígio social; seria uma forte oposição a X-eiro que representam as profissões desqualificadas ou marginalizadas.

Bechara (2005:358) ao comentar os nomes de agente formados pelo sufixo –ista, declara que a realidade da língua é constantemente contrariada na tentativa de se estabelecer construções agentivas calcadas nos critérios de ‘grau de prestígio social’, ‘formalidade’ e ‘grau de especialização’. Concordamos com o autor, pois não devemos deixar de lado os valores semânticos e as motivações do contexto.
A pesquisa foi finalizada com análise de formações em –eiro com semânticas destoantes. Engenheiro, que manteve a forma, pois inicialmente, se tratava dos trabalhadores dos engenhos, banqueiro, que com o surgimento da profissão de bancário, permaneceu em posição hierarquicamente superior, e companheiro, devido ao crescimento semântico adquirido com a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder e seu largo emprego na vida pública do Brasil.

Assim, esperamos ter demonstrado a importância da semântica entre substantivos e adjetivos no português do Brasil e que este trabalho possa contribuir com estudantes e professores de Língua Portuguesa.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Por Francisco das Chagas de Maria




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