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A contação de histórias no psiquismo infantil

Ampliando o espaço da contação de história.


A Contação de Historias no psiquismo infantil

Ouvir história é recuperar a herança empírica do homem, seus medos, descobertas e desejos. As crianças sabem muito bem o que é essa herança empírica no turbilhão de sentimentos que vivenciam, é onde entra a figura do professor/contador de histórias como mediador deste processo de aprendizagem de lidar com as emoções.

Para a criança muitos de seus sentimentos são tão confusos, perturbadores e dolorosos que é difícil administrá-los, trazendo assim infelicidade. Essa energia emocional fica represada e acaba vazando na forma de sintomas físicos, neuróticos ou comportamentais, como crueldade, comportamento agressivo, dificuldade de aprendizado, enurese noturna, falta de concentração, hiperatividade, obsessões, ansiedade, etc.

Apesar das crianças precisarem de ajuda para lidar com seus sentimentos estas não conseguem falar com naturalidade e facilidade sobre seus problemas, isto porque não estão habituadas à linguagem cotidiana, para elas esta não é a linguagem do sentimento, elas se expressam melhor através da metáfora, da imagem como em histórias e sonhos.

A comunicação por meio da narração de histórias fala as crianças mais profundamente do que a linguagem literal, a linguagem do pensamento; dramatizar com bonecos ou fantoches, representando aquilo que se quer dizer através do desenho ou pintura é fazer uso da linguagem imaginativa, essa é naturalmente a linguagem infantil.

Nas histórias, o mal está tão presente quanto o bem, existem inúmeros obstáculos a serem vencidos, aparecendo escolhas de solução que permitem que a vitória aconteça. Todos esses aspectos fazem parte da vida psíquica da criança, formalizando o processo de identificação.

Aquele herói que luta e vence mostra a possibilidade de não desistir diante dos problemas da vida real e ter forças para superar todos os desafios. Os seres que figuram o mal significam o aspecto instintivo do homem e, ao serem subjugados, criam a possibilidade de equilíbrio entre a natureza animal/instintiva e a humana.

De acordo com Bettelheim (ibid.), esses seres são criações do imaginário, fantasmas que a criança carrega dentro dela: medo do abandono dos pais, de ser devorada e da rivalidade com irmãos. As histórias contadas minimizam essas angústias e trazem paz as crianças porque essas energias maléficas são destruídas e “tudo acaba bem” no final do conto.

Ainda citando Bettelheim, a narração oral é um caminho para o desenvolvimento da maturidade e sedimentação da individualidade, da autovalorização e da projeção de um futuro esperançoso, gerando o abandono das dependências infantis e abrindo espaço para o convívio com a obrigação moral e a convivência social pautada na consideração ao outro.

É isto que a história faz, ela apresenta mecanismos para enfrentar os problemas de uma maneira saudável e criativa, levando a criança ao um mundo maravilhoso onde os processos vivenciados pelos personagens e suas aventuras são repletas de significados, a criança sente isso, ela entra no mundo da história, um mundo de esperança, opções e possibilidades: opções sobre o que fazer diante de um grande obstáculo, possibilidades e soluções criativas para a superação dos problemas e como lidar com as emoções.

As narrativas em sala de aula são ótimas ferramentas para o desenvolvimento da subjetividade das crianças, o conto permite que esta experimente emoções, vivencie-as em sua fantasia, sem que precise passar pelas mesmas situações na realidade, além disso, a história oferece a criança uma nova forma de pensar sobre os seus sentimentos difíceis, sentimentos dolorosos ou intensos demais (como um luto, o nascimento de um irmão, a adaptação escolar, etc.).

Os contos de fadas são as únicas histórias que de maneira simples e simbólica falam das perdas, da fome, da morte, do medo, do abandono, da violência... Eles têm suas bases nas camadas do inconsciente coletivo, em sentimentos comuns a toda a humanidade, por isso encontramos histórias bastante parecidas em diversas culturas pelo globo e em épocas diversas. Os contos de fadas possuem um fundo arquetípico, sentimentos complexos organizados de um modo fácil de entender especialmente pelas crianças, mostram que é natural ter pensamentos destrutivos e maus, que não se é essencialmente construtivo e bom e que é preciso ordenar os sentimentos e as tendências contraditórias.

A Contação de Historias na transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental

Toda construção do imaginário da criança ocorre em torno do ingresso no Ensino Fundamental. Este é considerado como um dos principais ritos sociais ao qual a criança é submetida pode significar alem disso, a afirmação de um status de personalidade quanto ao acesso ao mundo da leitura e escrita. Por isso é um momento carregado de empolgação e euforia, e também, pressão social e medo.

Diante disto e preciso planejar o processo de transição que ocorrerá a fim de minimizar o stress na criança. Um elevado nível de stress pode deixar marcas a curto e longo prazo, causar distúrbios e interferir no processo de aprendizagem.

A contação de histórias é um instrumento de grande valia nessa de transição, apesar da ausência de estudos avaliativos neste campo, pois ao ouvir uma história que relate sua trajetória até o momento e que ainda antecipa o futuro que a nova fase escolar lhe reserva, a criança elabora o inevitável rompimento dos vínculos estabelecidos nessa fase e se prepara para uma nova etapa, diminuindo assim o próprio nível de stress, o medo e a insegurança.


Referencias Bibliográficas

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 9. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1980.

GASPAR, Antônio C. C., DAMASCENO, Daisy H. S. A transição entre a educação infantil e o ensino fundamental. Col. Educativa Especial – Educativa a revista do professor. São Paulo: Editora Minuano, Ano I, n.05.

SUNDERLAND, Margot. O valor terapêutico de contar histórias. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

Por LINETE OLIVEIRA DE SOUSA




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